15 desatinónimos para Fernando Pessoa

Sexta-feira, Maio 04, 2007

ESCRITOR LOUCO LANÇA TRÊS LIVROS NUM DIA!













O conhecido louco Luís Graça (igualmente notório como escritor) foi acometido de mais um ataque de grau 7 e prepara-se para lançar três livros no mesmo dia, a menos que seja impedido pelas autoridades competentes, ou seja, Júlio de Matos e Miguel Bombarda.

A tripla insanidade ocorrerá a partir das 18 horas do dia 17 de Maio (quinta-feira), na Livraria Bulhosa Entrecampos, em Lisboa (15 minutos a pé a partir do Júlio de Matos, um pouco mais a partir do Miguel Bombarda).

Produtos de uma mente doentia e delirante (mesmo perigosa), os livros "De boas erecções está o Inferno cheio, King Kong Size, Edição Especial para Masturbadores" (poesia), "A mulher que fazia recados às putas e mais contos perversos" (contos) e "15 desatinónimos para Fernando Pessoa" (contos) estarão disponíveis para todos os corajosos que se quiserem arriscar a
comparecer no referido espaço de confraternização literária.

Igualmente presente estará o pessoano Riba de Castro, brasileiro radicado em Espanha, que comete a loucura de se deslocar expressamente (ou de avião?) de Madrid para o acontecimento, previsivelmente recheado com uma curta-metragem de Riba de Castro alusiva ao vate português ("Pessoalmente") e uma exposição de fotos que é... uma loucura! ("Lisbon Revisited", trabalhos de Inês Ramos e José de Deus, com textos de Luís Graça).

Luís Graça assegura que lhe retirarão a mordaça e o colete-de-forças na hora da sessão de autógrafos.

Terça-feira, Março 06, 2007

É grave, Doutor?

Um céu salpicado de estrelas é sempre uma dádiva divina. São assim as noites de Agosto em Fontão Fundeiro. Não conhecem? É uma pequena localidade perto de Figueiró dos Vinhos, uma ilha de bons ares, cercada de verde por todos os lados.
As águas recomendam-se e a fauna está boa, obrigado. Os javalis telefonam regularmente a um sujeito gordinho que caiu no caldeirão da poção mágica quando era pequeno, as raposinhas de orelhas espetadas atravessam a estrada de madrugada, em rodopios de Manolete, a dar olés aos carros que aderem ao programa rodoviário de curva e contracurva.
Vêem-se estrelas a cair dos céus, rasgões de branco no azul-escuro de uma pureza atroz. A beleza é tanta que dói na alma e o frio húmido dessas noites de Agosto entranha-se matreiro nos nossos corações.
Richard King, médico de formação, desviado para a veterinária por causa de uma visão nocturna, era um homem maduro. Cumprira recentemente o meio século de existência e nesse dia deu-se ao luxo de não fazer a barba.
Festejou com duas velinhas numa tachada de arroz doce, feito pela prima Viridiana, moradora numa casa de Figueiró que tinha pertencido ao pai do grande Malhoa pintor, parente afastado da cançonetista Ana Malhoa. A prima Viridiana era casada com Agostinho Single-Malt, um homem que apreciava os vinhos sem marca e whisky Monks, entre outros. Não se estranha, pois, que a tacahada de arroz doce tenha sido acompanhada a líquido da Escócia.
À falta de canela ficou o arroz doce festivamente coberto por confeitos. Não conhecem? Aquelas coisinhas de pôr nos bolos de aniversário. Pequenas pérolas prateadas, que os putos trincam garbosamente na flor da dentição. Especificando: as bolinhas prateadas são cientificamente designadas por pérola prateada. Ainda existem a missanga decorativa e a mistura decorativa. Tudo isto em pequenos frasquinhos da marca Globo, qualidade e distinção, embaladores e distribuidores “A colmeia do Minho”, Quinta da Cucena, Paio Pires, Seixal. Agostinho Single-Malt polvilhara a tachada de arroz doce com confeitos das três espécies e Richard King nem deu pela falta da canela.
— ‘Bora aí à adega do Ti Campelo — desafiou Agostinho, deglutindo o arroz doce e terminados os festejos oficiais do aniversário.

O Ti Campelo era o fornecedor da pomada do Agostinho (o tintol), sempre abastecido por garrafões brancos com a sigla AFS, que não se sabe muito bem de onde vinha. A de Agostinho, F de Felismina (dizia a bruxa da terra) e S de Simeão (dizia toda a gente). Mas não era certo que todas estas considerações ultrapassassem a mera conjectura.
Agostinho meteu toda a gente no Suzuki Samurai Pick Up 4x4 de cor branca e abalaram até à adega do Ti Campelo. Chovia um cochinho. Agosto recheado de desculpas esfarrapadas de Verão.
— Quando chove, nem pràs hortas, nem prà praia. Fica toda a gente a roçar o cu pelos cafés e a dizer mal do tempo --- desabafou Agostinho, a espiolhar a estrada, enquanto o pára-brisas dançava um tango binário no vidro frontal do Samurai.


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A adega do Ti Campelo era uma cave tipo bunker, com garrafas de garrafões por todo o lado.
— Tenho ali um garrafão do melhor para o PCP. Desculpa lá, esse não to posso vender — dizia sempre o Ti Campelo, que nem era comunista. Mas o Pedro Carvalho Pereira era amigo da família há muitos anos e merecia um tinto de excepção.
O Ti Campelo também tinha garrafões reservados para o CDS-PP (o jovem casal Carlinha Daniela Silva e Paulo Piteira), o PPD-PSD (um casal gay composto por Porfírio Pintado Deusdado e Policarpo Saraiva Dinarte), o PS (Perestrelo Soares) e o BE (Bernardo Esperança).
A adega do Ti Campelo era do mais castiço que havia e representava o expoente máximo de uma adega de província que se preze. Nas paredes, pendurado em lugar de destaque, um cachecol do Benfica.
— O Glorioso já não é o que era, mas o meu coração continua tinto e ensopado de angústias, sempre que joga o Benfica — suspirava-se de ais o Ti Campelo, que ainda vira o Eusébio a marcar golos na Luz.
Claro que adega a sério implica um calendário de gajas como deve ser, nem que seja para meter inveja à oficina dos bate-chapas. E o Ti Campelo possuía um calendário à maneira, com duas louras bem nutridas de mamalhal à mostra, a lavar um carro de luxo. Calções de ganga, esponjas na mão, espuma por todo o lado, traseiro pormetedor bem espetado, sorrisos para a foto.

Ao lado, uma gravura a fazer publicidade a um bar inglês. Sherlock Holmes a segurar numa cerveja e a mandar uma boca qualquer ao Dr.Watson. Via-se o letreiro de Baker Street, para evitar confusões e conferir credibilidade à cena.
Agostinho Single-Malt queria demorar-se o menos possível na adega, mas o Ti Campelo aproveitava a presença de Richard King para dar a provar uns licores e uns biscoitinhos, desfiar umas memórias, activar as tábuas sagradas da hospitalidade.
Só conseguiram sair perto das seis da tarde. Vá lá que o céu abrira.Ainda dava para chegar à quinta do Ti Ernesto.


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— Graças a Deus chegou, Dr. Richard! Isto está mesmo mal...
— Calma, Ti Ernesto, a gente vai já ver o que têm as vacas — sossegou Richard King.
Foram para os terrenos de pasto, onde ruminavam as herbívoras do Ti Ernesto, que sabiam mugir em vários tons, conforme o estado de espírito e as condições climatéricas.
— Abre a boca e diz aaahhh!
Espátula em riste, Richard apontava a lanterna às amígdalas, apalpava o pescoço, puxava a pele por baixo dos olhos e observava se estavam amarelados. Auscultava as vacas de lado, analisava o estado dos cascos, espreitava para dentro das orelhas, passava a mão pela cauda.
Parecia tudo normal.
— Não noto nada, Ti Ernesto. Isto deve ser coisa psicossomática.
— Elas têm andado tão tristinhas, Dr. Richard!
— Então e a música? O que lhes tem posto?
É que o Ti Ernesto tinha um belo sistema Bang and Olufsen, desenhado por Aalvar Alto-Lá-Com-Ele, para animar as vacas em quadrifonia. É outra coisa quando o leite sai das tetas a jorrar melodia, sem impurezas. Só que às vezes falha, se o DJ fôr grunho como o Ti Ernesto.
— Atão, Dr. Richard, tenho posto Springsteen: “The river”, “Nebraska”, “Born in the USA”.
— Há quanto tempo é que lhes põe Springsteen?
— Aí há uns 15 dias.

Richard King sorriu, mas estava desgostoso com a estupidez do campónio.
— Ó Ti Ernesto, eu já lhe tinha dito várias vezes que a ração musical tem de variar de vez em quando. As suas vacas estão carregadinhas de Brucelose. Agora, para desintoxicar do Bruce Springsteen, vai ser o cabo dos trabalhos...
— Ai, meu Deus, sou tão burro, tão burro, tão burro!
E o Ti Ernesto dava murros de punho fechado nas próprias têmporas, dos dois lados, em stereo, que dói mais, como manda a lei da frustração. Foi preciso Richard King agarrar-lhe nas mãos e acalmá-lo.
— Pronto, Ti Ernesto. As vacas não lhe vão morrer. É preciso ter calma.

Receitou exclusivamente músicas grelhadas durante um mês. As vacas tinham de beber muito água. Depois, aos sinais de alguma melhoria (ou melodia), um pouquinho de Mozart nos altifalantes. Com prudência, claro. Nada de allegros, para não perturbar a convalencença.
Depois, se as coisas corressem bem, até poderia dar-lhes Rolling Stones, Madonna, Britney Spears. As vacas gostavam imenso de Madonna e Britney Spears, porque o som lhes era particularmente familiar.

O Ti Ernesto deu um grande abraço a Richard King e deixou as lágrimas cair. O doutor era um anjo. Um anjo trabalhador, diga-se. Comeu uma sandes de torresmo, bebeu uma Cola Light e ainda foi ver o porco do Ti Jaquim.


******************

— Boas noites, Ti Jaquim. Então o que se passa com o Arnold?
— Boas noites, Dr. Richard. Eu até já tenho vergonha de o chamar. O cabrão do porco está-me outra vez com uma carraspana de Cabralose na focinheira! Um dia destes perco a focinheira, dou-lhe um pontapé no trombil e vai servir de sandes na Bairrada!
Havia muita raiva na voz do Ti Jaquim. Arnold era uma delinquente apto para as mais variadas reincidências. Gostava de viver no campo, mas andava sexualmente embrulhado com Eddie Albert e Zsa-Zsa Gabor, num estranho caso de triolismo. Aos fins-de-semana, era certo e sabido que tentava sempre fugir para a vivenda “Green Acres”.

O problema nem era o porco esgotar-se no sexo com o casal. O problema nem era o porco passar a madrugada a ver filmes de cowboys. O problema era a mania de se pôr a ouvir cassettes do Zé Cabra umas atrás das outras.
Após diagnóstico rápido e certeiro, Richard King confirmou os receios mais negros.
— Ti Jaquim, o senhor já sabe o que a casa gasta. O Arnold está mesmo com uma Cabralose galopante. Agora só vai lá com muita calma. Não pode ter sexo durante um mês. Nem com pessoas, nem com animais. Vai ter de levar uns shots de péniscilamina. Quanto a cassettes, é obrigatório que ouça Chopin ao pequeno-almoço e ao lanche. Depois dá-lhe Joel Branco ao almoço, com uma pílula de Becozime Forte. Ao jantar, Carmen às faixas fininhas.
— Obrigado, Dr. Richard. Não sei o que faria sem o senhor!
— Ora essa, Ti Jaquim. Fique bem.

Richard King recebia os salpicões e as morcelas da praxe e metia-se outra vez no carro do seu amigo Agostinho Single-Malt. No outro dia tinha agendado o duelo quinzenal de ténis nos courts de Figueiró.
O adversário era temível. Nada mais nada menos que o vigilante dos incêndios, que passava turnos de oito horas empoleirado em cima de uma torre, binóculos de prevenção e olho vivo.
Chamava-se Fernando Peçonha e jogava mesmo bem, o grande filho da puta.


Von Grazen, 13/8/2004, 04h30m, Fontão Fundeiro

Domingo, Fevereiro 25, 2007

O Parque dos Poetas

No dia da inauguração do Parque dos Poetas, chovia que Deus a dava. Um pequeno engano. Sendo a Irlanda e Portugal dois países de poetas, o Centro de Coordenação tinha distribuído tempo de Portugal (25 graus, céu limpo, brisa acariciadora) para um festival de poesia e música em Cork; e tempo mais do que justificadamente irlandês (9 graus, grossas bátegas de água, frequentes e chatas, céu farrusco e mal enfronhado) para Portugal. Oeiras, mais concretamente.
Pode-se dizer à vontade que a chuva não molha poetas, mas a verdade é que prejudicou de forma insofismável o brilho da inauguração. Em primeiro lugar, molhou bastante o fio da tesoura que foi dada ao presidente da autarquia, cujos vãos esforços para cortar uma fita da melhor seda apenas criaram um clima de “spleen” muito baudelaireano.
Finalmente, o senhor Geraldes, jardineiro diplomado com muita clorofila decepada, chegou montado no seu corcel John Deer, apeou-se, tratou algumas pessoas sem a consideração devida (era um tanto dado ao bagaço, na linha de António Nogueira) e desbastou de forma insolene a seda que deveria ter sido desflorada com cuidados de colibri.
— Prontos!
E saiu de cena, montado no John Deer de motor roufenho e pintura a precisar de um toque feminino.
O presidente da autarquia declarou aberto o Parque dos Poetas.
Marés de palmas planaram por entre a chuva. Sentiu-se cultura na atmosfera. O ar ficou mais leve. Magia pura. Os sorrisos brilharam para além das dimensões regulamentares. Mas era dia de festa. Quem ia controlar essas coisas mesquinhas ?
Caiu a noite.Foi-se a chuva. Vieram as estrelas.
Os melros, vestidos de Batman de bico amarelo, aventuraram-se ao novo design do espaço.
Bem ao centro do Parque, ouviu-se um fósforo a riscar bronze. Um pequeno clarão de um laranja belo acendeu o luar. Depois, uma minúscula nuvem de fumo nadou até ao céu.
— Sabe, Mário, o amigo não teve sorte. São assim os que os Deuses fadaram seus. Nem o amor os quis, nem a esperança os buscou, nem a glória os acolheu. Ou morreram jovens, ou a si mesmos sobreviveram, íncolas da glória ou da indiferença. O Mário morreu jovem, porque os Deuses lhe tiveram muito amor.
— Veja, Nando, no meio de tudo, colocaram-nos lado a lado no Parque. Nem tudo é azar. Podemos continuar as nossas conversas inacabadas.
— Certo, Mário. Mas era o mínimo que lhe podiam fazer. Por mim tanto fazia, desde que me lavassem a estátua com bagaço todos os dias. Mas parece que isso está garantido. Tenho as minhas fontes. No entanto, permita-lhe que lhe diga, o Mário não se dá com toda a gente. A sua vida poderia ter sido outra se se tem aproximado do Marcel. Assim, parece que Paris foi um tempo perdido.
— Compreendo o seu cuidado, mas agora é tarde, Nando. Não posso ir em busca do tempo perdido, independentemente do seu volume.
Luiz Vaz de Camões começou a dizer adeus, lá bem ao longe, da Alameda. Fernando António correspondeu ao gesto, por educação, embora sentisse um certo ciúme da figura. Mário, mais distraído, fez um sinal com a cabeça.
— Quem era, amigo Nando?
— Ninguém de especial. Um complicado das rimas. Cunhas, sabe como é. Qualquer gentinha com um mínimo de jeito para a palavra pode vir cá dar. Basta conhecer as pessoas certas. Política.
— Sei como é, Nando. Escrevi-lhe sobre isso de Paris.
— Tenho as suas cartas todas guardadas. São 202. Têm uma fitinha de organdi azul-bebé à volta. Não tinha mais nada à mão de semear.
— Escrevi assim tantas?
— Ó Mário, você precisava de desabafar com o seu amigo...
— Só você me compreendeu, Nando...
— Mário, aconteceu-lhe o mesmo que a muito boa gente. Enganou-se no atalho da existência. O importante é estarmos aqui os dois. O fumo não está a ir para cima de si, pois não? Ainda não tive tempo de estudar os ventos aqui do Parque...
— Por quem é, meu amigo. Fume à vontade. Ajuda a passar a noite. A primeira é sempre a mais difícil.
Luiz Vaz de Camões diz outra vez adeus, agora de forma mais insistente. Fernando António não conseguiu disfarçar a irritação.
— Está incomodado, Nando ?
— É o sujeitinho quinhentista outra vez, Mário. Não digo que seja má pessoa, mas é um possidónio. Não estava habituado a máquinas fotográficas, artigos de jornal, internet.
— Ah!...
— Pois, era um playboy de jet-set. Viagens, natação, miúdas, às vezes escrevia umas coisas. Mas muito encostado ao subsídio.
Ouviu-se uma ambulância. Um reflexo de pirilampo azul banhou as estátuas. Duas larvas desalojadas pela inauguração arrastaram-se penosamente até ao próximo morro de observação. Quando o dia nasceu, foi sem dor.
Por volta das nove da manhã, o sorriso de Fernando António tinha tudo de radioso. Mário acordou de umas poucas horas de sono e reparou na euforia do amigo.
— Então, Nando, acordou bem disposto, pelo que vejo?...
— Nem dormi, meu caro Mário. O Caeiro telefonou-me do campo e passou o tempo todo a discutir a temática da Dolly. Uma melga. Bom rapaz, mas muito chaga e rural, sabe como é... falta-lhe patine.
Olhe, olhe, está a ver o dos folhos no pescoço ?
— O de ontem à noite ?
— Sim, sim, veja como o sol lhe bate na tromba! Ele está mortinho por tirar os folhos, mas a vaidosice não o deixa... já ganhei o dia, já ganhei o dia...
— Ó Nando, você é que sabe, mas não está a desenvolver uns certos ciúmes com esse tal dos folhos ?
— Por amor de Deus, Mário. Só não lhe levo a mal porque sou muito seu amigo e sei que está de boa fé. O dos folhos só escreve manuais para a escola. Lê-se um canto aqui, outro canto ali. Os meus poemas lêem-se de ponta a ponta. O dos folhos a malta esquece, só sabe os primeiros versos. Os meus poemas toda a gente cita. É a diferença, amigo Mário...
— Bem, a manhã hoje está um pouco mais de azul...
— Não se entusiasme. Estamos em Oeiras. Sabe como é, o microclima do Jamor. Dá direito a tudo.
— Ó Nando, não se pode pedir um clima perfeito. Um Parque de Poetas dá trabalho a organizar.
— Pois dá, mas o jardineiro veio aí ontem pedir tabaco — o Mário estava a dormir — e contou-me umas boas.
— Por exemplo, Nando...
— Olhe, os maiorais da poesia foram escolhidos por consenso, mas depois havia uma quota por partidos e outra por sorteio, tipo tômbola.
— Não posso crer.
— Estou-lhe a vender o peixe ao mesmo preço que mo vendeu o jardineiro. É um homem do povo, simples, mas representa a essência do Quinto Império. Olhe, para já, não se deixa enganar no bagaço. Isso para mim é fundamental. Quem não se sente não é filho de boa gente.
Chegou a hora do almoço. No dia da inauguração tinham servido às estátutuas toda a sorte de benfeitorias. Mas o tempo era de crise. Até a conjuntura económico-financeira se alterar, todas as estátuas deviam levar em linha de conta a sua condição de cidadãos-poetas.
Por isso, nos primeiros três meses, a alimentação das estátuas-poetas era um tanto frugal. Deveria ser levada em consideração “a missão de representar insitucionalmente o país, o concelho e a cultura de um povo, já para não falar nos interesses da Comunidade Europeia, essa grande Disneylândia da esperança que, todos juntos, estamos em vias de construir”.
Ao pequeno almoço, uma peça de fruta e um pacote de Santal Alperce (protocolo de sponsorização). Para quem estivesse de dieta, Santal Pera. Ao almoço, duas sopas à escolha: canja de galinha com sonetos de letras (dieta) ou caldo verde com ensaios de Eduardo Lourenço; prato de carne: bolonhesa de hidratos de carbono (dieta) ou Pizza Multo Carne (protocolo de sponsorização com Pasta Café); prato de peixe: pescada cozida (dieta) ou conservas de atum Bom Petisco, com batata cozida, ovo e feijão frade (protocolo de sponsorização com Hipermercado Continente); doce: pudim do Abade de Priscos (só poetas laureados com mais do que três prémios do escalão três) ou leite-creme da avozinha; fruta: bananas e cerejas (para os poetas que já tenham utilizado palavras como cerejas).
Fernando António e Mário deglutiram rapidamente a refeição, porque preferiam os prazeres do espírito e do debate e ainda mal tinham começado a saciar-se com a espiritualidade mútua.
— Ó Nando, conhece Sadiouka Ndaw?
— Ó Mário, confesso a minha ignorância. Quem é?
— É um poeta senegalês muito interessante, dos arredores de Dakar. Vive em Rufisque.
— Sabe, Mário, eu saía pouco e não era um poeta todo-o-terreno.
— Pois, mas este cavalheiro vale a pena. Tem como balizas poéticas o poema “La mort du loup”, de Musset, e “Afrique”, de David Diop.
— Meu caro Mário, a ignorância não é vergonha nenhuma. Vergonha é fingir conhecimento onde ele não existe. De resto, demonstra também uma enorme falta de sentido prático. Mais tarde ou mais cedo, qualquer poeta é apanhado na sua própria armadilha. E depois, balizas poéticas lembram-me sempre futebol.
— Nando, o Sadiouka é presidente de um clube da II Liga do Senegal. E também gosta de natação e pesca. Não conhece aquele poema assim: “Femme de la nuit, femme du jour, épouse immortelle de mes rêves, ange auguste aux beaux contours...”.
— Não, mas lembra-me um bocado o brasileiro Augusto dos Anjos...
— Isso depois passa.
— Mário, passava era com umas boas férias. Este Parque está a parecer-me um tanto idiota. Se não fosse a presença do meu querido amigo.
— Não desespere, Nando. Talvez se consiga um intercâmbio de Parques de Poetas, tipo Erasmus.
Os Deuses acolhem as preces. Exactamente no primeiro aniversário do Parque dos Poetas, Fernando António Nogueira Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Luiz Vaz de Camões estavam bem sentadinhos à mesa de uma esplanada, a beber uma Carlsberg estupidamente gelada. Acompanhados de um puto com estilo: Alexandre O’Neill.
Cenário: Ilhas Gregas. É preciso é saber. Ionian Star Hotel. Construído em 1983 e completamente renovado em 2001. Com vista para o porto e mesmo ao lado do Parque dos Poetas.
— Ó Alexandre, o menino conhece algum poeta grego ? — perguntou Luiz Vaz.
— Nem estou interessado — respondeu O’Neill, muito calmamente, verbalizando a sua grande dúvida existencial do momento:
— Será que estes gajos têm tremoços? Alguém sabe dizer tremoços em grego?
E pôs-se a gritar para o empregado: “Yellow smarties for beer, yellow smarties for beer”. Em vão.
Pois, a vida não custa. É preciso é saber. Casa de banho privativa, ar condicionado, TV por satélite em todos os quartos. E ainda dizem que as estátuas dos poetas se tratam mal.
— Ó Nando, diga lá agora como embirrou com o Luiz naqueles primeiros dias em Oeiras...
— Oh! Isso são águas passadas, Mário...
— Diga, Nando. Foi tão divertido. O Luiz não se aborrece.
— Pode dizer, Fernando António — tranquilizou Luiz Vaz.
— Olha, Luiz Vaz, foi uma embirração. Ainda não tinha lido a sua obra com olhos de ler. Quando descobri a Lírica perdi as manias todas.
— Fico-lhe muito grato — disse Luiz Vaz.
— Não tem nada que agradecer. Sabe que o Villaret tanto declama um como outro...
— Não sei se deva confessar isto agora aos meus amigos. Mas eu gostava mesmo era de ter os “Lusíadas” adaptados aos tempos actuais. Uma coisa multimédia com os Fura del Baus. Com muito sexo na plateia. Ou então uma comédia tipo Feydeau, encenada pelo Fernando Gomes. Ou um espectáculo daqueles de um ano em cena, no Politeama, com o La Féria a tratar de tudo. Uma coisa de que ninguém se esquecesse. Os miúdos hoje só querem playstations...
— Não diga isso, é impossível matar a poesia. Estou tranquilo — esclareceu Alexandre, enquanto tentava espreitar para dentro do bikini de uma helénica que ia a passar.
E os dias correram sempre harmónicos na ilha grega de Lefkada, onde se tinha celebrado o protocolo de amizade Portugal-Grécia. Que abrangia, entre outras coisas, um intercâmbio sazonal de estátuas-poetas.
Uma ilha tão deslumbrante e tão esquisita que tinha gerado um poeta chamado Lefkadios Hern, nascido em 1850, filho de pai irlandês e mãe grega. Depois, deu-lhe uma veneta e acabou os seus dias no Japão, em Sinzuku. Já se chamava Yakumo Koizumi.
No Parque dos Poetas, o busto de mármore de Lefkadios (ou Yakumo?) dava sempre a salva ao Quarteto Maravilha, no passeio após o almoço. E Alexandre nunca se esquecia de levar uma Guiness e uma pequena chávena com saké. Para que o poeta não tivesse de sofrer as torturas da dúvida.
Claro que até no Paraíso há sempre um pormenor que pode correr mal, com os excessos. Mário exagerava na bebida e por vezes punha-se a vomitar nas valetas e a dizer coisas parvas para Fernando António:
— Doido! Doido! Doido! Tenha muita pena de mim...
Bebedeiras, o que se há-de fazer?
Nos churrascos era a mesma coisa. Punha o avental e não deixava ninguém virar as febras:
— Um pouco mais de sol e fôra brasa. Um pouco mais de azul e fôra além.
Mas a amizade é isso mesmo. Saber perdoar aqueles coisas que nem mereciam ser perdoadas. É preciso pensar que a essa hora mais de 50 poetas portugueses de boa cepa eram vítimas do Comandante Pombinho, terrível major-aviador da 3ª Esquadrilha do Terreiro do Paço:
— Atenção a todos os bombardeiros. Operação “Lagostim” começa dentro de momentos. Acertar as anilhas. Nome de código da estátua a atingir hoje: “Alberto Hélice”.
A vida tem destas coisas. Enquanto uns fazem vida de lordes nas ilhas gregas, outros têm todos os dias as cabeças a escorrer porcaria. Um cenário habitual, há longos anos, na poesia portuguesa.
E ninguém vê isto?
Claro que sim. Todos os dias. Os milhares de visitantes do Parque dos Poetas. Papás com as criancinhas pela mão, namorados em busca do alívio das tensões sexuais, amigos que se cansaram de estar em casa a ver televisão (Poetry Shows), visionários com mensagens para transmitir ao povo. Enfim, toda a gente.
Não é para isso que serve um Parque dos Poetas?
Por esses tempos, na Grécia, Alexandre O’Neill desafiava a Vénus de Milo:
— Ó mana, não quer ir lá ao hotel comer uns pastéis?
Quem nunca frequentou um Parque dos Poetas que atire a primeira pedra.

Luís Graça, 11/6/2003, 04h58m

Domingo, Fevereiro 18, 2007

'Tá tudo na maior?

— ‘Tá tudo na maior?
— Iééééééééé!
— Não ‘tou a ouvir nada!
— IÉÉÉÉÉÉÉ!
— Assim, sim. Boa noite, Lisboa.

Rock in Rio em Lisboa. Mais uma edição a caminho do sucesso. O promotor Fernando Pessoa acertara na “mouche” outra vez. Para além de coordenador do festival, era ainda o ‘manager’ da banda do momento, os “Village Persons”: Bernie Soares, Álvaro Fields, Ricky Reis e Al Caeiro.

— E agora, a banda que todos esperavam, no palco principal da Bela Vista, para encerrar da melhor forma a edição deste ano: os “Village Persons”!

Mal Fernando Pessoa acabou de anunciar a banda, um enorme “bruá” subiu aos céus, fazendo-se ouvir até à Alameda Afonso Henriques. Cerca de 120 mil pessoas (a antiga lotação do Estádio da Luz) em delírio ovacionaram a banda que o país inteiro consagrou.
Os holofotes varreram o palco e incidiram sobre o quarteto de luso-americanos, que optou por entrar em cena ao som de um dos grandes ‘hits’ do grupo: “In the poetry”.
“Na poesia, é onde gostas de criar, na poesia, versos feitos para amar... we want you... we want you... we want you as a new recruit... larilolé... larilas... olé!... e quem não salta não é poeta... e quem não salta... não é poeta!”.
Apesar da veterania da banda, o facto é que o concerto de encerramento do Rock in Rio funcionava como uma gigantesca ponte de união entre três gerações. Ao seu lado, a catarse musical de Paul McCartney ou Peter Gabriel não passara de uma brincadeira de crianças.
Al Caeiro, com as suas raízes campestres, estava vestido de chefe índio, como habitualmente, em homenagem à Associação de Amizade Cernancelhe-Connecticut; Bernie Soares, para não variar, dava nas vistas com os seus cabedais negros à ‘motard’; Ricky Reis era o marujo de serviço, com um estetoscópio ao pescoço; por fim, Álvaro Fields marcava presença como o polícia da estrada.

— Olá, Lisboa! É uma alegria enorme estar aqui no Rock in Rio — gritou Bernie Soares, o líder da banda, no final do primeiro tema de um concerto que tinha a duração prevista de três horas.
— E agora, com muito amor e carinho e um abraço especial para todos os emigrantes que estão a passar férias em Lisboa e andam lá fora a lutar pela vida... vamos tocar “A meio do outeiro”, uma composição do Al Caeiro.
Num fabuloso espectáculo de luz, cor e alegria, “A meio do outeiro” arrebatou a multidão, inteiramente conquistada pelas brilhantes coreografias da banda, que misturavam sabiamente o “disco”, o “soul”, o “funk” e o folclore português, com um ligeiro toque de madressilva e Madredeus.
“Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro/Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava./ Ele é o humano que é natural/Ele é o divino que sorri e que brinca./E por isso é que eu sei com toda a certeza/Que ele é o Menino Jesus verdadeiro”.
De rostos colados, todos à volta do microfone de Bernie Soares (o “lead singer”), Al Caeiro, Ricky Reis e Álvaro Fields conferiam um enorme “feeling” ao refrão: “Menino Jesus, Menino Jesus, Menino Jesuuuus verdadeeeeiroooo”.
Mais atrás, uma loira, uma ruiva, uma morena e uma chavala de cabeleira afro tratavam dos coros: “A meio do outeiro, a meio do outeiro, a meio do outeiro... só tu... só tu... Menino Jesus... verdadeiro... verdadeiro... a meio do outeiro”.
Centenas de T-shirts brancas com letras negras eram agitadas pelos fãs: “A meio do outeiro, Albert Caeiro”. Ou então T-shirts negras com letras brancas: “Ricky Reis: Doctor, Doctor, give me the news, bad case of loving you”.
As miúdas do coro estavam frenéticas no seu metro e 80, mais as botas negras de tacões altos, para combinar com os vestidos prateados brilhantes, colados ao corpo, com um decote sugestivo. Uma perfeita simetria de carnes, odores e movimentos.
No meio da multidão, estudantes universitários carregavam barris de cerveja às costas, com uma bandeirinha a sobressair do conjunto, estilo carrinho de choque da defunta Feira Popular. Os fãs, ávidos, consumiam cerveja às toneladas, mantendo, apesar disso, um comportamento irrepreeensível.

A noite estrelada convidava à fraternidade e à troca de intimidades. Os olhares dos fãs cruzavam-se insistentemente pelo meio dos decibéis, à espera de um heliporto do afecto onde acostar. À espera de um colo maternal feito doca.
— Obrigado, Lisboa! We love you! Vocês são uma audiência do mais great que há! Sinceramente trully! Palavra de honour! É uma grande honra para nós estar a actuar aqui. Viemos directos dos States só p’ra vocês!
Palmas. Aplausos. Histerismos vários. Aquelas coisas habituais nos concertos, não é? É preciso dar um certo desconto.
— Mas não foi sacrifice nenhum. Foi um verdadeiro pleasure! A gente voou de Newark, disse adeus à estátua da Liberty e pensou que vinha dar alegria aos nossos queridos portugueses. Nós somos 45 por cento americanos, 45 portugueses e 10 por cento não respondem/não sabem. Mas acima de tudo a nossa ária é a língua portuguesa!
Mais um tema. Mais uma voltinha. Mais uma viagem. É entrar, meus senhores, é entrar!
— Obrigado, Lisboa! Aqui a cantar para vocês, neste maravilhoso palco, as lágrimas escorrem-me pelo rosto. E eu gosto de ter as lágrimas a escorrer pelo rosto. Obrigado, Lisboa! Mas infelizmente, pelo mundo fora, há muitas crianças a chorar de fome. Crianças que não choram de alegria, como eu, neste momento, aqui convosco. Por isso gostava de vos dizer duas ou três coisas nesta noite de amor...
A multidão não deixou Bernie Soares prosseguir. Bastou uma fã de mamas a abanar ao vento proferir a palavra mágica: “Bernie! Bernie! Bernie!”. Logo os milhares de fãs se puseram a repetir o alakazam do fanatismo musical: “Bernie! Bernie!Bernie!”.
Bernie queria prosseguir. Bernie queria andar para a frente e não conseguia. Faltava-lhe espaço afectivo. Faltava-lhe uma aberta entre os fãs. Bernie levantou os braços e tentou continuar:
— Muito obrigado! We love you! Thank you, Lisbon. Portugal é grande!
A multidão apanhou o lamiré e mudou de palavra de ordem:
— Portugal! Portugal! Portugal!

Milhares de bandeiras que tinham sobrado do Euro-2004 emanciparam-se das mãos dos fãs e começaram a bailar na atmosfera, autênticos bailarinos russos em pontas.
— Obrigado, Portugal! Obrigado, Lisboa! Mas deixem-me dizer...
A multidão não deixava. Se não fosse o controlo apertado da segurança, quase se poderia dizer que uma considerável parte da multidão estava “pedrada”. Mas faz algum sentido falar disto num festival musical?
Finalmente, o senhor Soares lá conseguiu passar a sua mensagem:
— Uma só coisa me maravilha mais do que a estupidez com que a maioria dos homens vive a sua vida: é a inteligência que há nessa estupidez. A monotonia das vidas vulgares é, aparentemente, pavorosa. Estou almoçando neste restaurante vulgar, e olho, para além do balcão, para a figura do cozinheiro e, aqui ao pé de mim, para o criado já velho que me serve, como há trinta anos, creio, serve nesta casa. Que vidas são as destes homens? Está há 40 anos em Lisboa e nunca foi sequer à Rotunda, nem a um teatro!

Dois fãs que seguiam os “Village Persons” para todo o lado entraram em diálogo:
— O gajo já fez este discurso em Copenhaga, há dois meses!
— Pois foi. Trocou só as cidades e a profissão do velho. Em Copenhaga era um carpinteiro.
— Mas onde é que o gajo vai buscar estas coisas?
— Então não sabes?
— Não...
— Livro do Desassossego, página 183, Assírio e Alvim.
— Ah! pois é...

Bernie Soares anunciou a canção seguinte do alinhamento que os “Village Persons” cumpriam com a devoção de uma seita secreta:
— E agora um tema de Álvaro Fields, composto já há bastante tempo, quando éramos jovens. Mas ainda nos sentimos bastante jovens. Uma composição de Álvaro Fields: “ Freddie”.
E o grupo lá atacou a balada:
“Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te/Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim/Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes/viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingindo e a minha consciência incerta/Mary, eu sou infeliz/Freddie, eu sou infeliz”.

Acenderam-se isqueiros, iniciaram-se em ofuscantes cintilações nocturnas aqueles coisinhos verde-alface e aqueles coisinhos rosa que são vendidos a pataco. Os braços da multidão ao jeito das vozes, de um lado para o outro, de um outro para o lado, como uma espiga ao vento nos verdes trigais em flor.
E depois Bernie Soares cedeu um bocadichinho de protagonismo ao Ricky Reis e ele veio anunciar a presença-surpresa de um convidado muito especial:
— E agora temos uma surpresa para vocês. É um homem de um sucesso enorme, respeitado em todo o mundo. Estava muito sossegadinho na tenda VIP, lá bem ao fundo, naquelas colinas distantes, a tentar passar despercebido. Mas nós fomos lá buscá-lo. Perdemos um bom bocado a convencê-lo, mas é com grande prazer que posso anunciar que o convidámos a vir cantar um tema do Álvaro Fields. Meus amigos e minhas amigas, é um sumo privilégio poder anunciar a presença neste estaminé de um grande senhor do mundo da canção, de um grande senhor da canção e de um grande senhor do mundo: Roberto Leal!

Roberto Leal entrou em cena no seu trote habitual de Alter, imaculadamente branco, com uma discreta publicidade institucional à Olá nas costas do casaco.

— Boa-noite, Lisboa! Olá, brasileiros deste país! Hello, everybody! My name is Leal, Roberto Leal. Shaken, not coiso-e-tal.

E o raio do homem agarrou logo a audiência. Passou o microfone por cima da cabeça, passou o microfone por baixo das pernas, passou o microfone por trás das costas. Pouca gente sabe, mas Roberto Leal fez um estágio no Chapiteau, na Costa do Castelo, quando era jovem.

— Lisboa, estás preparada? Então, aqui vai. De Álvaro Fields, “Meu coração postigo”.
“Meu coração clube, sala, plateia, capacho, guichet, portaló/Ponte, cancela, excursão, marcha, viagem, leilão, feira, arraial/Meu coração postigo/Meu coração encomenda/Meu coração carta, bagagem, satisfação, entrega/Meu coração a margem, o limite, a súmula, o índice/Eh-lá,eh-lá,eh-lá, bazar o meu coração”.

Mais um delírio. Mais outro grande momento para a história da música. Até as ameaças de nuvem se balançaram no swing compassado da voz Leal. E Bernie Soares voltou para o volante do microfone.

— Há muitos intelectuais que não gostam do Roberto Leal. E dão a sua opinião. Mas uma opinião é uma grosseria, mesmo quando não é sincera. Toda a sinceridade é uma intolerância. Não há liberais sinceros. De resto, não há liberais.
Ah! é um erro doloroso e crasso aquela distinção que os revolucionários estabelecem entre burgueses e povo, ou fidalgos e povo, ou governantes e governados. A distinção é entre adaptados e inadaptados: o mais é literatura, e má literatura. O mendigo, se é adaptado, pode amanhã ser rei, porém perdeu com isso a virtude de ser mendigo. Passou a fronteira e perdeu a nacionalidade.

As horas passaram. As horas voaram.Tema após tema. Delírio após delírio. Lisboa a suar de prazer. Lisboa voraz de música. Lisboa a destilar ânsias de melodia. Os “Village Persons” a sair do palco. Zeus a assobiar pelo meio das barbas, a pedir bis, lá das galinheiras. Neptuno a bater com os pés lá do fundo dos oceanos. Então e os encores? Encore, rien? Atão eles na voltam ao palco?
Voltou só um a anunciar a surpresa. Ricky Reis:

— Thank you, Lisboa. Especialmente para vocês, já em pleno prolongamento, a última surpresa. Para as meninas já tivemos um louro. E agora anunciamos um chocolatinho, bem moreno, para os meninos. É uma jovem promessa de Newark, toca piano e fala inglês: Alícia Chaves.

Por amor de Deus! Ai o nosso coração. Alícia Chaves cantou e encantou em “If I ain’t got you”, dedicado ao líder da banda e seu conselheiro musical, Bernie Soares.

— Esta miúda vai longe... e desnivela-se em conglomerados de sombra, recortados de um lado a branco, com diferenças azuladas de madrepérola fria (página 385)

Final do concerto. Toda a malta a penantes para casa. Músicos e entourage para os bastidores. E o Bernie com tiques de estrela do rock, a lançar olhares libidinosos às miúdas que lhe apareciam pela frente.
Mesa farta, tipo casamento. Bernie mandou-se às entradas: melão de Almeirim com morcela. E verde à pressão.
— Conheço, translata, a sensação de ter comido de mais. Conheço-a com a sensação, não com o estômago. Há dias em que em mim se comeu de mais. Estou pesado de corpo e lorpa de gestos; tenho vontade de não me tirar dali de maneira nenhuma.
E vá de sentar a Alícia ao colo, sem respeito nenhum:
— Ai não te chamas mesmo Alícia Chaves? Chaves é nome artístico, porque a tua família é de Chaves e emigrou para os States... tem piada, só agora é que sei disto... e já te ando a dar conselhos há uns tempos...
As tuas mãos são rolas presas. Os teus lábios são rolas mudas (que aos meus olhos vêm arrulhar). Todos os teus gestos são aves. És andorinha no abaixares-te, condor no olhares-me, águia nos teus êxtases de orgulhosa indiferente. Tu és toda alada (página 292).

Bernie sentia um prazer imenso em ter Alícia ao seu colo. Todo o prazer é um vício, porque buscar o prazer é o que todos fazem na vida, e o único vício negro é fazer o que toda a gente faz.

E a madrugada correu suave. Croquetes, paio, lombo enguitado (petisco alentejano, não conhecem?), batatas fritas de pacote, lagosta à Terminator, aletria, mousse de chocolate caseira, lasagna clássica e vegetariana. Coisas da música.
Depois, Fernando Pessoa entrou no convívio, a esfregar as mãos. O festival tinha corrido bem.
— Amanhã, já sabem. Todos prontinhos às 14 horas, temos um gig em Loures, no Pavilhão Paz e Amizade.

Von Grazen, 28/7/2004, 03h11m

Doping: Coors (Borrowed Heaven), The diary of Alicia Keys, gelados da Hagen-Dasz.

Domingo, Fevereiro 11, 2007

O Congresso de Heterónimos

Como pode ser tão belo um fim de tarde?
A Dra. Tereza Frisa-Robes não o compreendia. Era coisa que a ultrapassava. Mas decidiu comemorar o fenómeno: organizando um grandioso congresso de heterónimos. O “1º Maxi-Congresso da Heteronímia Pessoana” decorreu num castelo de Edimburgo, próximo do Loch Ness.
O monstro não foi convidado, até porque não havia uma certeza cabal da sua existência. E também porque não constava do “mailing”. Para além de várias opiniões mais do que duvidosas sobre a obra do poeta português.
Em compensação, Chris de Burgh compareceu, na qualidade de convidado especial, patrocinado pelo uísque “Highland Bataclan”, cujo nome derivava de um famoso bordel, em tempos frequentado pelo escritor Jorge Amado.
Os trabalhos decorreram sempre de madrugada, entre a meia-noite e as oito da manhã, porque os heterónimos adoravam jogar golfe de tarde e depois do jantar não prescindiam de abalar até ao “Deep Throat”, um bar acolhedor, propriedade de Linda Amor-de-Laço, uma venezuelana de ascendência hawaiana, radicada na Escócia há um ror de anos.
O único heterónimo que não aguentava a bebida era o Chevalier de Pas, que tinha a resistência ao álcool própria de uma criança de seis anos. Por isso, era necessário que alguém o carregasse às costas, de regresso ao castelo, onde assistia às sessões em permanente estado de embriaguez letárgica.
A ordem de trabalhos era muitíssimo completa, ou não tivesse sido proposta pela Dra. Tereza Frisa-Robes. Sem mais delongas, aqui se dá à estampa a futuramente super-citada ordem de trabalhos:
1- Sessão de abertura. Boas-vindas aos participantes. Uma palavra amiga.
2- A heteronímia em Pessoa: brincadeira parva, esquizofrenia, passatempo ou obsessão literária?
3– Aprovação do orçamento para 2006/2007.
4– Assuntos diversos.

A Dra. Tereza Frisa-Robes surgiu no salão nobre do castelo temperada de um esplendor particularmente vistoso, ou não exibisse um faíscante vestido de lantejoulas vermelhas, para condizer com a cor das novas lentes de contacto, o verniz das unhas e os cabelos. E os 714 heterónimos desconheciam ainda que ela tinha um “piercing” da mesma cor no clítoris. Claro que a “lingerie” também condizia, será escusado dizê-lo.
Tomou lugar no cadeirão da mesa da presidência, ao lado dos heterónimos mais respeitados, como Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Bernardo Soares e Alberto Caeiro.
Com a devida vénia, aqui reproduzimos o seu discurso de abertura:
“Queridos heterónimos: é com grande prazer que os recebemos hoje aqui. Sejam muito bem-vindos e saibam que lhes estou muito grata. A vossa presença, para além de factor dinamizador da cultura portuguesa e da diáspora, é uma fonte enorme de satisfação pessoal para quem tem dedicado uma grande parte da sua vida num ‘voyeurismo’ bem intencionado, procurando descobrir mais e mais ainda sobre todos vós.
A vossa presença é ainda uma resposta a todos aqueles que se permitiram duvidar da vossa existência. Que este congresso seja o primeiro de muitos. Se precisarem de alguma coisa, não hesitem em dirigir-se à Maria José, a responsável pelo secretariado, a quem desde já agradeço a disponibilidade manifestada, a simpatia e o entusiasmo com que me ajudou a organizar este ajuntamento. Sem ela, nada teria sido possível”.
O ponto número 2 foi debatido ao longo de duas semanas de madrugadas intelectualmente brilhantes. Merece particular destaque a comunicação dos irmãos Alexander e Charles James Search, que se deslocaram de Durban até à Escócia, tendo redigido o “paper” a bordo do transatlântico “Salty Sea”.
O “paper” intitulava-se “A heteronímia como antepassado da Playstation”. Basicamente, defendia a tese de que Fernando Pessoa criara os heterónimos porque não existia ainda Playstation.
Embora o ambiente de discussão nunca tivesse ultrapassado a fronteira da educação, a bem da verdade será forçoso confessar que algumas comunicações houve que roçaram perigosamente a fronteira da má educação, do caciquismo e da difamação.
Estará dentro desta classificação o trabalho de António Mora. O título é algo violento, tanto como o conteúdo da comunicação: “A heteronímia como masturbação psíquica de um sujeito afectado pela idiossincrasia do seu tempo”.

Em breves linhas, podemos adiantar que António Mora defendia a insanidade mental do poeta, devida a um incontrolado consumo de bebidas espirituosas, para além de outros factores.
António Mora foi vaiado de forma insistente durante cerca de 15 minutos, cronometrados por Maria José, que era extremamente rigorosa e achava importante referir pormenores como estes na acta do congresso.
O ambiente desanuviou a seguir ao almoço, altura em que 523 dos 714 heterónimos acederam de muito boa vontade em participar numa prova de orientação, com algumas características de “Rally Paper”. Os heterónimos que não quiseram participar dividiram-se pelas mais variadas actividades: sexo puro e duro, sexo meiguinho, lerpa, xadrez, damas, chinquilho, burro-em-pé, bisca dos nove, esgrima e simples convívio.
No dia seguinte, passou-se à discussão do orçamento para 2006/2007. Como em tantas assembleias por esse país fora, a matéria do orçamento é sempre pretexto para debates acalorados, algo técnicos e maçudos. Os que percebem muito do assunto costumam perder-se em pormenores cansativos; os que não percebem nada alvitram as coisas mais disparatadas.
Valeu o peso da antiguidade de Ricardo Reis para pacificar os trabalhos e proceder à votação. Numa alocução marcada pela sobriedade, Ricardo Reis defendeu de forma convicta e apaixonada os dez por cento do orçamento dedicados a criar um prémio literário para os heterónimos médicos a viver no Brasil.
“O facto de eu ser médico, heterónimo e viver no Brasil não pesou na minha opinião, posso assegurar-vos. Mas acho muito importante que haja um prémio literário para todos aqueles que estão nesta situação. É factor sobremaneira relevante para uma heteronímia mais justa e mais humana, no seguimento das conquistas de Abril”.
Alberto Caeiro debruçou-se essencialmente sobre aspectos rurais da heteronímia:
“É bastante incompreensível que na zona do Ribatejo seja tão pouco conhecida a obra de Fernando Pessoa. Eu tenho apenas a quarta classe, mas possuo uma cultura herdada das estrelas, dos ciclos da terra, da sabedoria que me advém do cheiro do estrume”.
O heterónimo falou durante cerca de 20 minutos, mas o tédio apossou-se da assembleia, apesar do estatuto respeitado de Alberto Caeiro.
O heterónimo Ferrão Fragoso (um ex-maoista com cara de cherne), apurado à última da hora como heterónimo, teve uma atitude de alguma deselegância e gritou, bem alto, para quem o quisesse ouvir:
“Ninguém calará a voz da classe operária.O camarada Alberto Caeiro é uma fraude. Não há nenhum ribatejano puro que seja louro e de olhos azuis. Não posso calar a minha revolta perante mais este atentado burguês”.

Finalmente, o orçamento foi aprovado, quase por unanimidade. Contemplava a sponsorização de alguns itens particularmente relevantes para a heteronímia pessoana, tais como: asa-delta, visitas de estudo aos bares mais consagrados de todo o mundo, subsídios à compra de viaturas de alta cilindrada, publicação em edições de luxo de todos os materiais escritos pelos heterónimos, independentemente da sua qualidade.
O último ponto da ordem de trabalhos foi bastante interessante, como seria de esperar de heterónimos de nível intelectual tão elevado. A contribuição mais marcante terá sido a de Álvaro de Campos, que propôs a criação de um grupo de trabalho.
“Longe de mim a defesa da censura. Quem me conhece sabe que eu sou o primeiro defensor das amplas liberdades literárias, sexuais e cívicas. Mas é perfeitamente vergonhoso o que estão a fazer à obra de Fernando Pessoa, colocando-o no mesmo plano de autores menores como Camões, Eça de Queiroz ou Lobo Antunes”.
Álvaro de Campos lembrou que nenhum destes autores possuía um heterónimo que fosse, provando a pobreza da sua criação literária. Criticou ainda a linguagem rebuscada dos “Lusíadas”, a obsessão revisionista de Eça de Queiroz e o processo de escrita de Lobo Antunes, que apelidou de “leit-motiv por marés”.
No seguimento da sua intervenção foi criado um grupo de trabalho coordenado por F.Antunes. O “Comité de Vigilância Literária” tinha por tarefa a criação de um “lobby” na Assembleia da República, para conseguir que uma percentagem do IRS cobrado revertesse para a “Associação dos Heterónimos Pessoanos”.
O comité dividir-se-ia em vários pelouros, a saber: Índex, Acções Punitivas, Finanças e Lazer.
Desde logo ficou decidido que o pelouro do Índex se encarregaria de hierarquizar um conjunto de obras perniciosas à literatura mundial. Em conjugação estreita com o pelouro das Acções Punitivas, o pelouro Índex se encarregaria de banir estas obras das bibliotecas, livrarias e outros locais públicos. Mas como a democracia é um valor fundamental, todo e qualquer particular que possuísse estas obras não deveria sofrer represálias. Mesmo os possuidores de livros de José Saramago.
O pelouro das Acções Punitivas basear-se-ia no modus operandi da ETA, das Brigadas Vermelhas e do IRA. Em casos mais extremos, seria possível contratar os serviços de organizações mais extremistas, designadamente oriundas do mundo árabe. Mas sempre na condição de avençados ou em empreitada, para não onerar a heteronímia pessoana com encargos de segurança social.

O pelouro das Finanças operaria segundo os moldes já estabelecidos pela associação, mas em casos especiais seria aprovado em Assembleia-Geral um fundo de emergência, aplicável a casos mais complexos.
O pelouro do Lazer tinha por objectivo proporcionar uma vida sã aos membros do comité, de molde a que estivessem sempre nas melhores condições para trabalhar. Caber-lhe-ia organizar deslocações a clubes de strip, a casas de massagem, ao cinema, a restaurantes de luxo, etc.
Cumprida a ordem de trabalhos, o congresso terminou com uma magnífica sessão de fogo-de-artifício. No relvado em frente do castelo os heterónimos correram nus pela relva, fizeram malabarismos com garrafas de champanhe francês, declamaram Fernando Pessoa, jogaram futebol, deram largas à sua dinâmica cultural.
Ora ainda bem.

Von Grazen, 11/7/2004

Domingo, Fevereiro 04, 2007

Teimoso 73

Esta é a história de Osvaldo (O.), o 73º heterónimo de Fernando Pessoa. Uma história de hombridade, sacrifício, coerência e muita teimosia. Esta é a História D’O.
O. nasceu numa despensa cheia de brinquedos velhos. Teve uma infância perfeitamente normal e o seu maior amigo foi Pinóquio, com quem descobriu os prazeres do sexo, masturbando-se nos nós da madeira e comparando o tamanho dos narizes.
— Gostava tanto de ser o Cyrano — desabafava Pinóquio com frequência.
— Pede ao Gepetto — respondia O., a quem todos tratavam por Osvaldinho, na altura.
A vida correu sempre bem a Osvaldinho. Era aplicado na escola e só tinha um ligeiro bloqueio com o 7x9 e com a palavra obsessão, que confundia frequentemente com obcecado.
Mas o desabrochar para a vida pode revelar a crueldade do mundo. Fernando António, o seu progenitor, bem lhe dizia: “Não aceites charros de estranhos. Não aceites boleias perto de monumentos nacionais. Não entres em filmes pornográficos de baixo orçamento. Não aceites participar em reality shows. Não leias o ‘Ulisses’, do Joyce, todo de seguida. E salta o prefácio, senão nem consegues começar”.
Osvaldinho assim fez. Mas os perigos são tantos no mundo de hoje que é difícil cobrir todas as possibilidades. Depois, é tudo uma questão de sorte. E o azar bateu à porta de Osvaldinho numa tarde de Dezembro, à saída do Circo Mariano.
A última coisa de que Osvaldinho se lembra é de ver os palhaços a pedir aos miúdos para bater palminhas. Depois, sentiu um lenço na cara e acordou com uma grande dor de cabeça, num sítio muito escuro.
Gritou imenso e pediu socorro. Ouvia vozes, mas não podia precisar se eram de homem, mulher ou criança. A fome era muita. A sede também. Já para não falar do frio e da humidade.
Quando nasceu o dia, Osvaldo percebeu que estava prisioneiro numa masmorra miserável, que nem sequer possuía condições mínimas para as ratazanas. Conseguiu amarinhar até uma pequena janela que dava para a rua. Chovia a potes. Trovejava. Havia raios e coriscos.
A pesada porta de ferro abriu-se de repente. Um maravilhoso mulherão de metro e 80 de altura, Mademoiselle Corinix, sorriu-lhe com a boca toda e passou-lhe a mão pela testa:
— Tens febre, Osvaldinho ?
Osvaldinho sorriu, pensou que o pesadelo estava para acabar, que tudo não passara de um sonho mau. Ia acordar no circo e bater muitas palmas aos palhaços. Mas só teve direito a uma garrafa de “Napoléon” e um livro de contos de terror do Edgar Alan Poe.
— Por agora, não consegui trazer-te mais nada. E mesmo isto foi às escondidas de Madame Terezinha.
Mademoiselle Corinix deu-lhe um beijinho na testa e saiu, a abanar as ancas, como se estivesse a desfilar no Carnaval do Rio.
Osvaldinho, que era um puro de alma, pôs-se a pensar bastante e descobriu que tinha de ser cem por cento racional. Não havia nada a fazer naquele momento. E tratou de recuperar forças, bebendo meia garrafa de “Napoléon” e lendo cinco contos do Edgar.
Duas horas depois achava que a masmorra devia ter ar condicionado. Quando Madame Terezinha entrou, Osvaldinho estava em tronco nu, a rir sozinho e a imitar o orantotango que entrava nos filmes do Clint Eastwood.
Madame Terezinha (Tereza Vibra-Golpes de nome de baptismo) era uma mulher interessante, encadernada por um fato de cabedal negro e botas de tacão alto. Tinha o rosto bonito emoldurado por maquilhagem preto-e-prata, como o salão do Casino Estoril.
— Olá, Osvaldinho. Chamo-me Madame Terezinha. Não te quero fazer nenhum mal. Se colaborares, não te vai acontecer nada e podes juntar-te rapidamente ao Fernando António. Mas se ofereceres qualquer tipo de resistência, fica sabendo que posso ser cruel. Para já, não te digo mais nada. Vou-te deixar um tabuleiro com comida e um álbum de banda desenhada do Guido Crepax. Logo à noite volto, para saber a tua resposta.
Osvaldinho achou aquilo deveras estranho e misterioso. Quem era a bizarra Madame Terezinha e o que podia querer dele? Quem era Mademoiselle Corinix, com uma expressão tão fina e delicada?
Pouco depois, Mademoiselle Corinix voltou a entrar na masmorra, trazendo almofadas, uma cama de água portátil, cobertores, dois pares de belíssimos candelabros (comprados na Feira da Ladra a um toxicodependente em último grau) e uma pastilha “Easy Date”.
— Toma, é um calmante.
Osvaldinho, com o coração prenhe de boa fé, tomou a pastilha sem desconfianças. Duas horas depois, Mademoiselle Corinix abandonou a masmorra, com um sorriso de plena satisfação. Osvaldinho não se lembra bem do que aconteceu, mas tem a certeza de que Mademoiselle Corinix lhe deu um beijinho na testa antes de sair.

No outro dia, Osvaldinho acordou cansado, mas feliz, embora não soubesse explicar porquê. Quando Madame Terezinha entrou na masmorra do Castelo de Roissy, com duas panteras negras pela trela, Osvaldinho tinha decidido não fazer nada que fosse proíbido pela Convenção de Genebra.
— Madame Terezinha, eu não quero incomodar, mas só lhe posso dizer o meu nome e a minha patente.
As panteras negras (muito inteligentes e com uma vida sexual activa, o que dá sempre boa disposição) atiraram-se para o chão, perdidas de riso. Sim, porque tinham aprendido a rir com as hienas da masmorra 1111, onde estava detido um quarteto musical.
— Osvaldinho, não se trata disso. Preciso de ti para duas coisas: primeiro, para escravo sexual da Rainha Má da Branca de Neve, que é uma convidada de cerimónia e já me estragou muitos criados. Segundo, quero que assines uma declaração a garantir-me os direitos de merchandising do teu heterónimo. O mercado é muito concorrencial e temos de estar um lance à frente da competição.
Osvaldinho, apesar de ser uma alma cândida, percebeu que aquilo era mais uma golpada de SAD, SGPS ou outro esquema qualquer marado. Népias, é o assinas.
— Aceito a 50 por cento. Quando a Madame quiser mudo-me para o quarto da Rainha Má.
Madame Terezinha sorriu, mas notou-se algum desconforto na sua face. Uma das panteras abanou a cabeça em sinal de desaprovação e constrangimento. A outra sentou-se e coçou uma orelha com a pata esquerda. Sem perder mais tempo, Madame Terezinha deu meia-volta. Osvaldinho ainda ouviu nitidamente a última frase, que já não lhe soou bem:
— Talvez mudes de ideias depois de passares uma noite com Mademoiselle Corinix.
A menos que houvesse ali qualquer cena à Luís de Matos, Osvaldinho não estava a perceber bem qual era o problema. Mademoiselle Corinix era muito simpática e usava um perfume soberbo: Chinelo 5.
Ao fim da tarde já não pensava da mesma forma. Mademoiselle Corinix tinha entrado na masmorra com um fato todo cheio de pregos, uma coleira de Yorkshire Terrier e um cachecol dos Ultras Roissy.
Agrilhoou Osvaldinho às paredes frias e húmidas, de costas viradas ao público, chicoteou-o com toda a força que os seus lindos braços lhe permitiam e depois perguntou-lhe com uma voz que cheirava a fel:
— Então, Osvaldo, assinas ou não?
Osvaldinho não assinou, numa atitude que muitos podem considerar como um grave erro existencial. Mademoiselle Corinix não esteve com contemplações. Já tinha visto tudo o que queria.
Muniu-se de um “strap-on” do mais duro latex do planeta e sodomizou Osvaldinho com uma frialdade digna de um cubo de gelo gronelandês, depois de ter rodado um anúncio de frigoríficos no pólo norte.
Escusado será dizer, sem lubrificante.
Osvaldinho foi deixado só na masmorra, sem comida nem bebida.
Nessa noite, chorou muito. Lembrou-se do Pinóquio e de todos os amigos que tinha deixado para trás. Fazia-lhe muita confusão que Mademoiselle Corinix o tivesse penalizado daquela forma. Osvaldinho não tinha feito nada. Aprendeu a lição mais dura da sua existência: uma SAD, uma SGPS, quando querem, acabam sempre por ir ao pacote de um cidadão isolado. Não adianta resistir.
No outro dia, foi transferido para uma masmorra mais luminosa, onde havia uma grande arca. Permaneceu amarrado durante 16 horas seguidas. Depois, Madame Terezinha chegou à masmorra com um vestido transparente laranja, sapatos verde-alface e um véu róseo a tapar-lhe o rosto.
— Assinas?
Osvaldinho não assinou e foi metido na arca.
Não queria entrar, mas depressa percebeu que não era de bom tom resistir ao chicote de Tereza Vibra-Golpes.
Quando o cadeado foi fechado, Osvaldinho virou-se para trás e compreendeu que a arca era muito maior do que parecia. Sob a aparência de uma vulgar arca para heterónimos, possuía a complexidade subterrânea de um palácio.
— Olha lá, pá, despacha-te. Estão a servir o ponche das dez da noite. Depois só há groguinho ao pequeno-almoço.
Quem assim falava era o heterónimo 85, que também não tinha assinado nada.
— Pois é, eu sou o Fernando Whitman, um heterónimo à moda de Walt Whitman. Tenho um livro intitulado “Folhas de graxa”. Mas a vaca da Vibra-Golpes não o edita enquanto eu não assinar. Sem a autorização dela nada pode sair da arca. A Corinix também te aviou?

Osvaldinho foi-se integrando na comunidade dos heterónimos e passou ao estado adulto sem dar por nada. A vida dentro da arca estava muito organizada e não faltava leitura. Mas a esperança era coisa que poucos tinham. Enquanto não cedessem aos interesses perversos da gerência do Castelo de Roissy, não havia hipótese nenhuma de voltar a uma vida normal.
— Mas a polícia não faz nada ? — perguntou Osvaldinho ao Fernando Whitman, ao terceiro dia de encarceramento na arca.
— Isso sim. Estão todos feitos uns com os outros. Isto dos heterónimos é um grande negócio. Não faltam arcas pelo mundo fora. Nunca ouviste falar da Resistência?
Osvaldinho nunca tinha ouvido falar. Parece que havia movimentos subversivos por todo o Mundo. Os mais activos eram liderados por heterónimos de Mário de Carvalho e António Lobo Antunes. O Marinho Sueco (heterónimo 13 de Mário de Carvalho) costumava utilizar uma singela palavra de ordem para convocar as reuniões secretas: “Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto”. O “Danças com Lobos” (heterónimo 17 de António Lobo Antunes) dava a contra-senha: “Não entres tão depressa nesta noite escura”.
O presidente da Assembleia-Geral da Resistência era o Pequeno Príncipe (heterónimo 15 de Carlos Reis, que tinha fugido de um armário da Biblioteca Nacional disfarçado com uma barba à Alexandre Herculano), que começava sempre os trabalhos da seguinte forma:
— Bem-vindos a mais uma sessão de trabalho da Resistência dos Heterónimos Literários. Hoje vamos votar mais uma proposta de evasão, que nos chegou dos nossos colegas americanos. O heterónimo 127 de Brett Easton Ellis pede autorização para seguir em frente com um plano de fuga da arca maior de Alcatraz. Quem vota a favor? Quem vota contra? Quem se abstém? Aprovado por unanimidade. Senhor secretário, registe em acta, por obséquio, que o heterónimo 127 do nosso camarada americano pode fugir quando quiser. Nada mais por hoje. Até à próxima Assembleia.
Aos poucos, os heterónimos de Fernando Pessoa foram fenecendo ao bafio da arca, mirrados de esperança, bloqueados por crises criativas, fartos de ler os mesmo livros, ver as mesmas caras.

Osvaldinho decidiu resistir até poder. Passados muitos anos, só havia dois heterónimos de Fernando Pessoa na arca do Castelo de Roissy: Osvaldinho e Abade Faria, o pseudónimo escolástico, que se tentou evadir num saco de roupa suja. Mas como a roupa suja era muita no meio literário, enganou-se no saco e acabou por ir desembocar na Academia Sueca. Foi recapturado e hoje ainda cumpre pena numa cave do Palácio da Pena, em Sintra, mesmo ao lado de Little Ludwig, o pseudónimo louco de Luís Da Baviera, aprisionado quando participava no Troféu BMW sem carta de condução.

Era óptimo poder acabar esta história com um final feliz.
Infelizmente, por exigências de programação, tal não é possível.
Osvaldinho ainda vai continuar preso por muito tempo.
Fica para a próxima.
Esta foi a História D’O.

Von Grazen, 13/3/2003, 06h25m

Domingo, Janeiro 28, 2007

Explicações de Inglês

Eduardinho chegou à Brasileira mesmo em cima da hora.
Fernando António já se encontrava sentado à mesa, com um bagaço à sua frente. O petiz estava algo intimidado, mas por fim lá se aproximou do poeta, que tinha um ar estranho.
— Deves ser o Eduardinho, que vem para a explicação de inglês.
Eduardinho disse que sim com a cabeça. Fernando António indicou-lhe a cadeira do lado.
— Senta-te aí, petiz. Já tomaste o pequeno-almoço?
Eduardinho esclareceu que tinha tomado um sumo de laranja.
— Um sumo de laranja não é nada. Um petiz como tu precisa de alguma coisa substancial, para aguentar um dia inteiro de provações. Ó Lopes, são mais dois bagaços!
O Lopes trouxe mais dois bagaços e colocou-os à frente de Fernando António. O poeta empurrou um para Eduardinho. Dois ou três pingos de bagaço escorreram pelas bordas do cálice e ficaram a evaporar-se em cima da mesa.
— Ó petiz, isto não custa nada. Olha para mim!
E pronto. Não custou mesmo nada. Fernando António atirou um bagaço, de penalty, como é de bom tom, pelas goelas abaixo.
— Viste? Isto não custa nada. É sempre a aviar. Beber bagaço é dar de comer a um milhão de portugueses.
Eduardinho olhou para Fernando António e percebeu que a vida não continuava se não bebesse o bagaço. Experiência inédita. Mas se o cálice parecia estar cheio de água, não podia ser assim muito difícil. Atirou a cabecita para trás e lá desapareceu o primeiro bagaço da sua vida.
Um violento ataque de tosse tomou imediatamente conta do corpo franzino de Eduardinho. Algumas senhoras finas invectivaram o poeta.
— Parece impossível. A dar bagaço à criança... o senhor é um irresponsável...
— Ó minha senhora, circunde-se de rosas. Beba, ame, cale-se. O mais é nada...
Eduardinho começou a recuperar o fôlego. Sem saber como nem porquê, um sorriso aflorou-lhe os lábios. O poeta aparou o sorriso do petiz com elegância e devolveu-lhe a graça com um sorriso ainda mais aberto.
— Bagaço, Eduardinho. O bagaço é que nos salva! Há por aí outra pinga boa, mas o bagacinho é que faz andar o mundo. Estás a perceber?

As senhoras finas levantaram-se da mesa do lado e desceram em direcção ao Rossio. Não se podia estar ao lado do poeta, cada vez mais bêbado, cada dia mais insuportável, com as suas manias e maluquices.
— Queres comer alguma coisa, ó miúdo? Come chocolates, pequeno, come chocolates. Olha, pede uma tablette pequenina e molha a pontinha no bagaço. Ah! pois é, já não temos bagaço. Ó Lopes, faça-me um favor. São mais dois bagaços e um chocolate fininho para o miúdo... mas olhe, daqueles que caibam no cálice...
O Lopes trouxe mais dois bagaços e um chocolate fininho, com papel às risquinhas, que Eduardinho tomou a seu cargo com prontidão.
— Ó sôr Fernando, o miúdo aguenta-se no balanço com os bagaços? Se calhar era melhor travar um bocadinho...
— Ó Lopes, não me diga que está como as lambisgóias do chazinho e scones... este miúdo tem pinta de ser de boa cepa... não é, Eduardinho? Olha, petiz, mergulha a pontinha do chocolate e trinca... isso mesmo... estás a ver como é? Vou só beber mais um bagacinho e já começamos a explicação...
Pelas 11 horas da manhã, Fernando António Nogueira Pessoa, bagaceiramente atestado, iniciou a primeira explicação de inglês da vida de Eduardinho, que já tinha a boca doce do chocolate e o coração quente do bagaço. De modo que via o poeta a dobrar e ouvia a sua voz como se vinda do Além.
— Isto é fácil. O inglês é uma língua muito bonita. Vais ver que gostas. Eu não tive dificuldade nenhuma. Olha, vê lá se consegues perceber a minha letra e tenta ler o que está aí escrito.
— Verbo tóbé.
— Quase. Verbo to be. To be, was, been. Vamos começar pelo presente. I am, you are, he, she, it is; we are, you are, they are. Diz lá o que pensas disto.
— Os verbos ingleses têm muito ar.
— Por acaso é verdade. Nunca tinha pensado nisso. Sabes, o verbo to be é ser ou estar. É o primeiro verbo que se dá quando se quer começar a aprender inglês. Repete comigo! I am, you are, he, she, it is… ó Lopes, são mais dois… ai não queres? é só mais um afinal, obrigado... we are, you are, they are, como está o senhor? É o sr. Verde, também é poeta e anda por aqui pelo Chiado.
Por volta das 12 horas e 30 minutos, o poeta achou que Eduardinho podia fazer uma pausa no inglês. Estava na hora de almoçar.
— Vamos ali para os lados do Terreiro do Paço. A segunda parte da explicação vai ser no Martinho. Mas antes vamos almoçar numa tasca jeitosa.
A Tasca da Clotilde era uma típica casa de pasto lisboeta, com toalhas aos quadradinhos, jarras de vinho tinto ordinário, serviço familiar e preços baixos. Já para não falar do colo avantajado e maternal da dona. Nos dias de festa, um cravo vermelho adornava-lhe os seios, como Muro de Berlim a dividir duas leitarias desavindas.
Por acaso a dona nem se chamava Clotilde, mas Leonilde. Clotilde era uma prima direita, que morava em Viseu e sabia tudo sobre rouxinóis, tentilhões e mais uma série de pássaros com nomes tristes.
— Ora então boa tarde, sôr Fernando. Sentem-se ali naquela mesinha do canto que já lá vou assentar o pedido...
— Boas tardes, D. Leonilde. A mesinha do canto nem é má ideia...
Foi mesmo na mesinha do canto. O poeta sentou-se, poisou o chapéu em cima de uma cadeira e ofereceu a outra, ao lado da janela, ao Eduardinho.
— Olha, filho, senta-te aqui, que ficas com vista para as meninas aos caracóis.
Dito isto, o poeta quedou-se pensativo. Coçou a cabeça por um instante e tirou uns papéis de dentro da sua pasta de mão. Durante dez minutos ninguém o ouviu. Eduardinho entreteve-se a analisar o ambiente da casa de pasto e a olhar pela janela. Não passou nenhuma menina aos caracóis.
Constatação sem consequências. O poeta já criara mais um poema.
“A menina dos caracóis/passa sempre à uma da tarde/em passinhos miúdos e banais/com a mãe atrelada nos seus ais”.
— Olha, lê e vê se gostas — disse Fernando António para Eduardinho.
O mocito, tímido, não queria dar uma opinião.
— Sôr Fernando, não quis interrompê-lo nos seus versos. Mas agora que acabou já posso tomar conta do pedido.
— Ó D. Leonilde, diga-me lá o que acha do poema.
Leonilde, que gostava muito de poesia (não falhava as marchas dos Santos Populares), deitou uma olhadela para o mais recente poema de Pessoa e disse, sem pruridos ou vergonhas:
— Ó sôr Fernando, sabe como eu sou. Tenho o coração ao pé da boca. Quando me pergunta se os croquetes são do dia eu também não lhe minto. Estes versos rimam demasiado, sôr Fernando...
Pessoa pediu um caldo verde, uma bifana bem passada, encomendou um bife com ovo a cavalo para o Eduardinho e guardou o poema na pasta de mão.
— Isto de ser poeta tem os seus truques. Se a gente acha que o poema é mau cria um heterónimo, para disfarçar. Claro que depois as coisas podem fugir do controlo. Mas deixa lá, estou para aqui a aborrecer-te. Então, viste muitas meninas a passear na rua?
— Vi, mas não havia nenhuma aos caracóis.
— Isso não faz mal. Resolve-se já o problema. Ó D. Leonilde, há caracóis?
— Então não, sôr Fernando? Mando-lhe já a minha filha com um pires deles bem aviado...
Três minutos depois aparecia na mesa um pires de caracóis bem aviado, elegantemente transportado por uma menina dos seus dez anos.
— Muito obrigado, Gabriela. Eduardinho, diz olá à Gabrielinha, que é filha da D. Leonilde. Estás a ver? Sempre há meninas e caracóis.
O poeta atirou-se aos caracóis como gato a bofe. Eduardinho recusou polidamente. A cabeça continuava um pouco flutuante e a tasca revelava ainda uma curiosa propensão rotativa.
— Ó petiz! Isto assim não pode ser nada, estamos às escuras. Ó D. Leonilde, traga um jarrinho de tinto da casa, dos maiores. E dois bagacitos, para abrir caminho... já sei, já sei, não queres bagacinhos... não faz mal... eu bebo os dois, para aquecer os motores... tu vais provar este tintinho, que é de estalo. Vem lá das Beiras. Uma coisa a sério. O quê? Tens a cabeça a andar à roda? Pois... pode ser do sumo de laranja. Deve ter-te caído na fraqueza. Uma vez bebi uma laranjada que me caiu mal. Olha, mete-se um bocado de gasosa no tinto e depois do bife com ovo a cavalo vais ver que te sentes outro.
Eduardinho comeu o bife com ovo a cavalo. É provável que os copos de tinto agasosado tenham alguma coisa a ver com este assunto: no final da refeição o recheio craniano de Eduardinho ouvia o ovo a cavalo a relinchar perdidamente.
Saíram da tasca. Fernando deu-lhe a mão. Não por especial afectividade, mas apenas para auxiliar o petiz a locomover-se nas ruas traiçoeiras de Lisboa.
— Deixa lá, não te preocupes, Eduardinho. Quando comecei a beber, as ruas também pareciam escorregadias. Vais ver que já estás fino quando chegares ao Martinho.
Chegaram ao Martinho sem incidentes. Eduardinho estava agora com a curiosa tendência de achar piada a tudo. A sua gargalhada fresca fez-se ouvir ao longo de todo o percurso, a propósito de tudo e de nada. A cabeça continuava a andar à roda, mas Eduardinho habituara-se e principiava a gostar da sensação. O corpo parecia mais leve. E não sentia o passeio.
— I am, you are... todos no ar, todos no ar... ah! ah! ah!

O poeta escolheu uma mesa a meio da sala, onde tinha por hábito produzir prosa para o Mundo esquecer. Saudou os empregados com uma reverência familiar e dispôs-se a continuar a lição.
Mal estavam instalados e com o reinício da explicação por segundos, Eduardinho levantou-se da cadeira e gritou lá para dentro:
— Ó Lopes, são dois bagaços, temos medo do escuro!
Pessoa ficou muitíssimo surpreendido. Mas com um simples movimento de cabeça, inequívoco, garantiu ao longínquo empregado que a ideia tinha sido aprovada. Por estranha coincidência, aquele empregado também se chamava Lopes. Eduardinho não deu hipóteses. Quando chegaram os bagaços, bebeu os dois à velocidade do relâmpago, num reflexo aterrorizador. E tratou de emitir um som consolado, seguido de um sonoro arroto bagaciento. Na atmosfera ficou a pairar um odor a bife com ovo a cavalo.
— Então isso agora é assim, ó petiz?
— Lá no almoço bebeste tu dois bagaços...
— Ai já nos tratamos por tu?
Eduardinho corou, com a bebedeira emigrada por uns instantes. Depois voltou ao paralelo das gargalhadas e disse:
— Gosto de ti. Primeiro parecias esquisito, mas afinal és muito mais giro que o meu pai, apesar de não teres jeito nenhum para as poesias.
Por estas e por outras é que o poeta achava que o melhor do mundo são as crianças. Descontadas as opiniões idiotas sobre poesia. Era visível que o miúdo estava bêbedo, por isso desculpava-se.
O resto da tarde foi passado com jogos educativos. Pessoa estava adiantado para o seu tempo, até em termos não exclusivamente pedagógicos. O heterónimo professor de inglês chamava-se Alexander Teach.
— Percebeste mesmo? Eu digo uma cor e tu dizes o nome de um objecto que tenha essa cor, em português, está bem? Vamos experimentar. Red...
— Vinho tinto.
— Muito bem.
E Eduardinho atirou-se para trás na cadeira e ergueu os braços em sinal de triunfo.
— Sou muita bom. Ah! Ah! Ah!
— Vá, vá, não te desconcentres. Isto ainda são coisas sérias. Não te esqueças que estás na explicação de inglês...
— Posso beber mais um bagaço?
(Porra p’rò miúdo, saiu-me melhor do que a encomenda. Se calhar não devia tê-lo entusiasmado com os bagaços. Parece-me um superdotado).
— Não. Hoje não há mais bagaços. Quando acabar a explicação bebes um capilé.
— Posso deitar um bocadinho de vinho tinto no capilé?
— Não senhor. Bebes o capilé como deve ser, com uma rodelinha de limão.
— Então um bocadinho de gin. O meu pai bebe gin com uma rodelinha de limão...
— Deixa lá as bebidas agora e concentra-te. Se acertares as cores todas dou-te um livro com desenhos para colorir... vamos lá, green...
— Vinho verde. Sporting.
— Muito bem. Agora blue.
— Blue claro ou blue escuro ?
— Os dois!
— Blue escuro, vinho do Porto. Blue claro, pastéis de Belém.
Não havia que enganar. O Eduardinho tinha potencial. Pessoa resolveu testá-lo de forma definitiva. O pink ia esclarecer a situação.
— Atenção agora, que é difícil. Pink...
— Ah! Ah! Ah! Mateus Rosé…
Chapeau. O diabo do miúdo era um predestinado.
Pouco depois a explicação acabou. Eduardinho bebeu um capilé e comeu duas sandes de presunto especiais. Fernando tomou um cordial e petiscou uns pastelinhos de bacalhau. Apeteceu-lhe beber mais um bagacito, mas o dinheiro estava a acabar e na volta quem bebia o bagaço era o petiz, que tinha reflexos demoníacos, mesmo bêbedo...
Nessa altura lembrou-se de que tinha de pôr o miúdo na paragem de eléctrico do Chiado e que a noite ia cair a breve trecho. Para evitar confusões, deu um café forte ao Eduardinho e obrigou-o a lavar a cara. Dois minutos depois ouviu-se claramente o som de vómitos. Pessoa dirigiu-se aos lavabos rapidamente e sossegou o miúdo.
— Não te preocupes, Eduardinho. Foi o presunto que te caiu mal.
Quando saiu dos lavabos, vinte minutos depois, Eduardinho já não tinha vontade de rir e o seu rosto apresentava um tom esverdeado. Pessoa fez um sinal ao empregado. O Lopes trouxe um leque e sais de frutos Kruchen. Eduardinho não queria beber, mas depois lá se começou a sentir melhor.
— Agora vamos a pé até ao Chiado. Vais ver que te sentes logo melhor. Quando entrares no eléctrico, arranja um lugar na janela e mete a cabeça de fora. Quando chegares a casa nem te lembras que estiveste mal disposto.

E lá foram os dois a pé até ao Chiado. A noite caíra sobre Lisboa. Havia estrelas no céu. O poeta olhou para Eduardinho, meditou durante alguns minutos e depois disse:
— No próximo dia, depois da explicação levo-te às meninas...
— Aos caracóis?...
Pessoa sorriu, com a alma agasalhada de meiguices.
— Sabes, petiz, a minha pátria é a língua portuguesa.
Lisboa era uma grande cidade.


Von Grazen, 17/3/2003, 06h50m

Domingo, Janeiro 21, 2007

O insondável caso do misterioso Ponto GL

Bela terra, Vila Viçosa. Fernando António combinara encontrar-se na localidade com a sua amiga Florbela Espanca, presidente de um movimento de libertação da mulher.
De forma secreta, Florbela também era a líder de um movimento sado-masoquista, que “noite sim-noite não” se reunia numa mansão para ler Sade, Bataille, Walser e praticar sexo violento.
O dia amanhecera com manias de brisa e histerismos de nuvens indecisas. Ora tapavam o sol, ora o descobriam sem o mínimo pudor. Poderia dizer-se com alguma propriedade que estava um céu de pintor. Não faltavam motivos iconográficos. O director de fotografia Robbie Muller também apreciaria sobremaneira os efeitos especiais da troposfera.
Fernando António estava imerso na leitura, bebia bagacinhos e de vez em quando levantava os olhos para o céu e ajeitava o chapéu, onde pousavam, de cinco em cinco minutos, libélulas particularmente adeptas de Florbela, que deitavam o canto do olho aos sonetos que Fernando António lia avida e fleumaticamente.
“Tanto clarão nas trevas refulgiu,/E tanto beijo a boca me queimava!/E era o sol que os longes deslumbrava/Igual a tanto sol que me fugiu!”.
A páginas tantas, Fernando António cansou-se da inconstância das libélulas, no seu pousar e levantar assustadiço. Comeu uma, por mera dissuasão, pois o poeta ainda não tinha fome. Eram apenas 11 horas, 23 minutos e 55 segundos. Fernando António nunca tinha fome antes do meio-dia, 7 minutos e 18 segundos.
Florbela chegou pouco depois, com uma perla de transpiração a escorrer-lhe pela face esquerda. Sentou-se num desvario, levantou o braço e pediu um Martini, com uma casquinha de limão.
— Meu querido Fernando, então, o que me diz de Vila Viçosa?
— Bela terra, Florbela, bela terra.
— Eu sabia que o meu amigo havia de gostar. Por isso o convidei. Ó Fernando, tem uma coisa colada ao lábio, a sair-lhe da boca.
Fernando António levou a mão ao lábio e retirou cuidadosamente uma asa de libélula que tinha ficado presa.
— Não é nada. Obrigado, Florbela.

A conversa começou aos ésses, tomou rumos intelectuais, peregrinou por questões turísticas, andou ao sabor do vento e dos acasos. Pelas 13 horas, 19 minutos e 13 segundos, o marcador assinalava: Fernando António, 11 (bagaços) — Florbela Espanca, 6 (martinis). Certo que Fernando partira com avanço, mas a menina Florbela não era peca a dar-lhe com solenidade nos martinitos.
— Ó Fernando, acha que era boa ideia pedirmos qualquer coisa para petiscar, assim tipo almoço?
— A Florbela é que sabe. Por mim, não há nada como um bagacinho e um soneto dos seus. De resto, já comi um insecto, que nem me soube nada mal.
Vieram queijinhos frescos. Veio broa. Veio manteiguinha. Veio um jarrinho de tinto, para misturar com Seven Up, à camionista de longo curso, antes do “balão”. Depois, como prato principal, cabrito assado à padeiro.
Tanto Florbela como Fernando não deram confiança às sobremesas, saltando logo para café e digestivos. No caso, cálices de Cointreau. Podia-se dizer que os dois amigos estavam bem. Estômagos aconchegados, a alma tranquila de ardências.
— Conte-me lá, Florbela, e o seu clube feminino?
— Sabe, Fernando, os tempos vão maus para a libertação das mulheres. O que me vale são as sessões de literatura nocturna. E mais umas coisinhas.
— Que coisinhas?
Florbela inclinou-se para a frente, agarrou com ternura na cabeça do poeta e segredou-lhe ao ouvido todo o pitéu sado-masoquista na mansão da Marquesa de Osga.
— A sério?!?
— Ó Fernando, eu ia lá brincar com uma coisa destas! Às vezes, basta tocarem-me num certo sítio e eu expludo logo. Sabe o que é o ponto G, não sabe?
Fernando António não sabia. Mas a vida tem curiosas coincidências. Um sujeito que discretamente lia o “Diário de Notícias” na mesa do lado, levantou-se num rompante, tirou o chapéu num gesto assaz nobiliárquico e apresentou-se:
— Se me permitem, creio que está no ponto de me apresentar. O meu nome é Ernst Grafenberg e sou o inventor do Ponto G. Sabem, o Ponto G “é uma área de tecido, semelhante a um botão, na parede exterior da vagina, que incha durante a excitação sexual. Quando o Ponto G é estimulado e suavemente pressionado, a mulher experimenta um orgasmo rápido e intenso. Alguns pesquisadores acreditam que o Ponto G pode ser o equivalente feminino à próstata, já que está situado perto do colo da bexiga. Procurar o Ponto G durante os preliminares é um modo excelente de ambos ficarem excitados sexualmente. A sua parceira deve deitar-se de costas enquanto você se coloca de lado, junto dela”.
Primeiro, Fernando António e Florbela Espanca ficaram sem reacção. Poderia dar-se o caso de estarem em presença de um embusteiro, com particular tendência para memorizar extractos do livro “Sexo e Prazer”, edições Asa. Fernando resolveu testar o homem:
— Então diga lá quantos centímetros de dedo indicador lubrificado se devem inserir na vagina...
— Bem, cinco a sete centímetros e meio — disse o alegado Grafenberg, enquanto levantava o seu indicador direito de forma professoral e os olhos lhe brilhavam.
Estes últimos pormenores convenceram Fernando António, que convidou o cavalheiro a sentar-se. Uma hora passada, pode-se dizer que os sintomas de intimidade se intensificaram. Grafenberg tinha o dom da oratória e era profundamente conhecedor da temática sexual. Além disso, possuía ainda o raro e apreciado mérito de misturar a linguagem científica com anedotas alentejanas sobre sexo.
— A senhora dona Florbela tem cara de ser dada a práticas sexuais, digamos, desviantes. E digo desviantes sem nenhum propósito de julgamento moral. Deixe-me que lhe aconselhe a posição de “Borboleta em suspensão”.
Banzados. Ah! pois! Uma pessoa pode perceber muito de poesia, até pode ser dada às artes do sexo, mas não está à espera que lhe apareça um Ernst Grafenberg a aconselhar posições que tais.
Banzados. Foi assim que ficaram Fernando e Florbela.
Grafenberg estava embalado. Citou, de memória, o livro “O grande O”, de Lou Paget, a páginas 115: “A posição de ‘Borboleta em Suspensão’ permite que a mulher controle a sensação de que precisa e quer. Neste desenho, em particular, ela apoia o peito contra a cabeceira da cama, enquanto o homem tem a cabeça apoiada na almofada. Desta forma, ele pode ajustar a pressão sobre o seu rosto e pescoço sem ficar com a sensação de que está a ser esborrachado”.

Era óbvio que Grafenberg também sabia o que era o mastoideu. Mas não foi disso que falou a seguir. Referiu de imediato que a “Borboleta em suspensão” também podia ser designada por Aka Somf (senta-te na minha cara). Meia-hora depois, com um ar grave, rematou: “O factor prazer durante a cópula é directamente proporcional ao conforto da posição que ambos adoptarem”.
E isto independentemente de se ser de Esquerda ou de Direita.
— O senhor Fernando é um homem culto, já vi. Mas sabe, por exemplo, o que é o nó Y?
Já eram letras a mais para uma só tarde. Fernando António encolheu os ombros e Florbela Espanca solidarizou-se com o poeta, na sua ignorância.
— Y só conheço o suplemento do ‘Público’, às sextas-feiras — afirmou Fernando.
— Nó, só conheço os de marinheiro e o górdio — disse Florbela.
— Para o movimento de nó Y, o homem alarga a lábia, servindo-se de dois dedos de uma mão e, com a segunda mão posicionada mais acima, coloca o dedo médio, ou os dois juntos, de modo a massajar o clítoris com movimentos laterais, para cima e para baixo, ou com movimentos circulares.
“Chapeau”!
Grafenberg não tinha apenas lábia. Ele sabia mesmo do que falava.
— Permitam-me que lhes aconselhe a leitura de Puchkine.
— Eu já leio os contos de Puchkine. Muitíssimo bons — confessou Fernando.
— Ah! o cavalheiro conhece os contos. Mas eu não me refiro aos contos. Refiro-me ao seu diário secreto. Conhece? Não? Está a ver como são as coisas?
Ora bolas! O Grafenberg começava a tornar-se um bocado chato, com a sua omnisciência. Está certo que já se tinha aprendido umas coisas, mas se o homem quase não passava a bola, era sabido que a tarde ameaçava tornar-se longa como o caraças. O melhor era mandar vir mais uma meia-dúzia de bagaços, pelo sim pelo não.
“E ser cornudo é horroroso e insuportável. Ninguém se aproveitou tanto da falta de conhecimento dos maridos como eu, e como eu gostava de ver os seus cornos a crescer, invisíveis para todos, excepto para mim!”.
Pois. A páginas 25 do livro editado pela Difel.

O homem citava as páginas como quem bebe um copo de água. Ou um bagacito, no meu caso. Foi a Florbela quem salvou a situação, desviando a conversa para os tempos retroactivos dos romanos e levando o jogo para o livro escrito por John Clarke, primo do antigo campeão de Fórmula Um, Jim Clark. “Le Sexe à Rome”, editions de La Martinière, gravura sugestiva na capa, com uma romana montada num romano. Uma pintura erótica da Rua Mercúrio, em Pompeia, no século I.
Alguns investigadores defendem que a mulher se chamava Maria José e o homem João Francisco, mas é altamente improvável.
— Sabe, amigo Grafenberg, muito do que nos disse já os romanos sabiam, séculos atrás.
— Não duvido, cara senhora. Mas é preciso sistematizar as coisas.
— O amigo Grafenberg sabia que a páginas 67 de “Le sexe à Rome” o último subtítulo diz “Tableaux de sex shows dans l’auberge de la rue Mercure”? — invectivou Florbela.
— Desconhecia totalmente, minha amiga. Por quem é!
— E sabia que isto só foi retirado das cinzas em 1823?
— Não fazia a mínima ideia.
Ora toma! Boa, Florbela! Só para o homem não ter a mania que sabe tudo. Já estava capaz de o mandar meter o dedo no rabo. Não o faço por mera prudência. O gajo punha-se logo a citar as técnicas de meter o dedo no rabo e eu é que ficava de cara à banda. Vou contra-atacar, agora que a Florbela já o encostou às cordas e o canto neutro está ocupado por vendedores de bijuteria.
— Amigo Grafenberg: já que estamos em maré de confidências, sabe o que é o ponto L?
O homem ficou branco. Suores frios começaram a escorrer-lhe pelas costas abaixo. Tantos anos de taradice sexual, tantas horas enfiado nas bibliotecas a masturbar-se com as gravuras antigas, tanto esforço posto em causa de um momento para o outro. Primeiro, o tal livro dos romanos que ele desconhecia por completo. Depois, um ponto L perfeitamente omisso no seu repertório de conhecimentos. Ó Céus cruéis!
Fernando António avançou, decidido.
— O Ponto L é o Orgasmo Literário, amigo Grafenberg!
Completamente derrotado, Grafenberg escusou-se com uma conferências das 9 da noite em Leipzig, com um helicóptero à sua espera, com um javali ao lume. Uma coisa assim. Foi-se. E tudo o vento levou.

Fernando António e Florbela Espanca suspiraram.
— Olha, Fernando, vai o meu último soneto, antes do jantar?
— Vamos nisso, Florbela.
— Chama-se “Horas rubras”. É assim: “Horas profundas, lentas e caladas/Feitas de beijos sensuais e ardentes,/De noites de volúpia, noites quentes/Onde há risos de virgens desmaiadas...
Oiço as olaias rindo desgrenhadas.../Tombam astros em fogo, astros dementes,/E do luar os beijos languescentes/São pedaços de prata plas estradas...
Os meus lábios são brancos como lagos.../Os meus braços são leves como afagos./Vestiu-os o luar de sedas puras...
Sou chama e neve branca e misteriosa.../E sou, talvez na noite voluptuosa,/Ó meu Poeta, o beijo que procuras!
— Belo poema.
— Obrigada. Fi-lo há dias, no intervalo da orgia na mansão.
— Ah! daí a referência aos risos de virgens desmaiadas...
— Pois é, primeiro riem-se, depois desmaiam, quando percebem o que lhes vai acontecer. A propósito, vamos pagar a conta, que ainda tenho de ir comprar um capuz novo, antes da sex-shop fechar. Tenho usado um de cabedal preto que é uma verdadeira estufa. Uma pessoa até perde o prazer de estar a chicotear o vereador da Cultura...
Fernando António, cavalheiro, pagou a conta. Florbela saiu primeiro, em passo de corrida, dificultado pelos tacões-agulha dos seus elegantes sapatos à sado-masoquista. A sex-shop estava quase a fechar. Combinaram encontrar-se uma hora mais tarde.
O restaurante “O pargo enchernado” (especializado em ‘Pargo à la cherne’,‘Caldeirada de lulas enraivecidas’ e ‘Cataplana à la bacana com banana’) era um “must” de Vila Viçosa e já tinha sido combinado que Fernando António e Florbela Espanca fariam as honras da casa no primeiro dia da estada do poeta no magnificente rincão telúrico de Portugal.
Fernando escolheu uma mesa discreta, ao pé da lareira, encimada por alguns versos de Florbela:
“Gosto de ti apaixonadamente,/De ti que és a vitória, a salvação,/De ti que me trouxeste pela mão/Até ao brilho desta chama quente”. Ao lado, um brasão de Vila Viçosa e um quadro do Marquês de Bricolage, com uma caçadeira na mão e um perdigueiro aos seus pés.

Fernando sentou-se, pediu um tartex e um conhaque, só para entreter. Um criado de cabelos grisalhos e pinta de bissexual veio limpar a mesa das migalhas, com uma escovinha toda amaricada. O som da escova na toalha manchada de “Porta da Travessa tinto 1640, 2ª edição” produziu um efeito calmante no lisboeta, que pediu um charuto e se recostou no amplo cadeirão de cabedal. Pouco depois chegou Florbela, com um saco de plástico preto e doirado.
— Então, essas compras?
— Sabe, Fernando, este país está cada vez mais pindérico. Para além de fechar às 19 horas, a sex-shop tem uma capacidade de rotação de produtos verdadeiramente escassa. Lá tive de comprar um capuz do ano passado, uma coisa completamente ultrapassada. Já ninguém fustiga em Paris com um capuz assim. Mas nós somos o esgoto da Europa e Vila Viçosa deve ser a capital do “dumping” dos produtos S&M.
— Tenha calma, Florbela. Também não há-de ser assim tão mau.
— É, sim senhor. Já viu a carta, Fernando? Aconselho particularmente as “Enguias ao supremo enleio”. É um prato de homenagem ao meu poema, que termina assim: “E quando a derradeira, enfim, vier,/Nesse corpo vibrante de mulher/Será o meu que hás-de encontrar ainda...”.
Fernando estava mais virado para o tornedó de carapaus com molho à espanhola, acompanhado por feijão verde e castanhas assadas, uma especialidade do Chef Sílvio, recém-chegado de um estágio de ‘nouvelle cuisine’ na Tasconha. Florbela pediu a Hamlet de Ovas de Intrujão. Com uma salada de alface e tomate, temperada com agriões.
O repasto estava a decorrer da melhor forma, ao som ambiente de Mozart, que se esgueirava pela sala ampla com a subtileza de um esquilo dos jardins de Gotemburgo. Na mesa ao lado, um sujeitinho não parava de rabiscar, em fúria, apontamentos para algo que o afligia. Escrevia e riscava, riscava e escrevia.
Às tantas, Fernando António, prestável, ofereceu-se:
— Peço desculpa de me intrometer, mas a minha pátria é a língua portuguesa. Posso ajudá-lo?
— Obrigadíssimo. Estou a tentar escrever a minha prosa de hoje para a crónica “O barbante na horizontal”. Não me sai nada. Nem um filme, nem uma peça de teatro, nem um comentário político. Vila Viçosa secou-me...
— Não diga isso. Uma terra que inspira a Florbela não pode secar ninguém literariamente. Olhe, ainda hoje à tarde senti uma verdadeira aproximação ao Ponto L...
— Ó meu amigo, que felicidade! Quanto eu não daria para aflorar de raspão o Ponto L...

Fernando António estranhou que o fulano soubesse o que era o Ponto L. Mas a verdade é que estava perfeitamente ciente dessa realidade literária. Apresentaram-se.
— Fernando António, escritor.
— Eddie Rabbit, professor subsidiário.
— Então o que o traz a Vila Viçosa?
— Estou a preparar uma tese, precisamente sobre o Ponto L. E talvez sobre o Ponto GL.
— O Ponto GL?!? — estampou-se de estupores o rosto de Florbela.
— Sim, o Ponto GL é o nirvana. A definição é esta: “Atinge-se o ponto GL quando a qualidade literária é tão elevada que produz uma ejaculação”. Ou seja, é a mistura do Ponto G com o Ponto L. Não há orgasmo mais perfeito.
— Nem a surfar um “pipeline” no Hawai? — perguntou Fernando.
— Nem isso. Nunca atingi o Ponto L, mas tenho amigos que o conseguiram, embora nunca atingissem o GL. Donde, o mais correcto é conformarmo-nos com o nosso destino. Donde, o melhor é continuar a ler Benjamin, Derrida e outros que tais. Dá sempre jeito para uma boa mesa redonda, um colóquio. Donde, cá vamos andando.
O diálogo prosseguiu animado pela noite fora. Fernando António, Florbela Espanca e Eddie Rabbit partilhavam a paixão pela literatura. Ora, se juntarmos a esse gosto uma mesa farta e aprimorada, que mais se pode pedir? Eddie Rabbit acabou por escrever a sua crónica à sobremesa (“O cinema de animação existe?”) e saiu com os dois amigos para a noite de Vila Viçosa, agitada por uma movida sempre renovada.
No restaurante “O pargo enchernado”, finalmente vazio, um quadro vetusto ganhou uma animação particular. O Marquês de Bricolage podia finalmente mexer-se. Fez uns exercícios de desentorpecimento, baixou-se para um afago ao canídeo e desabafou:
— Porra, estava a ver que estes chatos nunca mais se iam embora. Como está o meu Mondeguinho? Uma festinha no Mondeguinho, uma festinha no Mondeguinho...
Na parede em frente, num quadro de Sisley, um homem num barco gritou para o Marquês de Bricolage:
— Ó Marquês! Todas as noites é a mesma coisa. Desvie lá a arma! Sempre que faz festas ao cão a arma fica apontada para o meu quadro. Não lhe chegou ter acertado na aguarela da Catarina Eufémia na Noite de Natal?
Quem sabe alguma coisa sobre os fantasmas de Vila Viçosa que ponha o dedo no ar. Está bem, Grafenberg, está bem... vejo que o senhor sabe.

Von Grazen, 20/7/2204, 00h45m.

Domingo, Janeiro 14, 2007

A minha pátria é a Amazónia Portuguesa

Sei não, cogitou seu Caeiro, no tranquilo do campo.
Esse tal do Sindicato dos Escritores Profissionais da Amazónia seria legal? Pô, eu quero mais é ficar por aqui, cuidando da criação e dando ração para eles: Bernardinho, Álvarito, Ricardão. Meu rebanho, viu?

ZÓING. ACTIVAR CONVERSOR, POR OBSÉQUIO.

Um incómodo. Largar tudo e acorrer ao convite do Sindicato dos Escritores Profissionais do Amazonas era uma coisa que Alberto Caeiro considerava problemática. Gostava pouco de se deslocar. Depois, Manaus era no fim do mundo.
Mas como o presidente José Ribamar Mitoso tinha sido tão simpático, seria indelicado recusar um convite sobremaneira bem-intencionado. O intercâmbio cultural entre Portugal e Brasil não podia ser desprezado. Até porque os rurais devem ajudar-se. Claro que Manaus já era uma grande cidade, mas de certa forma ainda vivia uma provinciana ruralidade.
Havia outro factor. Tinham ficado a bailar-lhe no cimo do cajado uns versos provenientes do Brasil, já não sabia de quem: “Os homens são banais/em suas abstracções/sem nexo/Os amigos/são legais/mas não fazem sexo”. Era quase certo que estes versos eram amazonenses, mas de quem? Do próprio Ribamar Mitoso?
Era uma terrível chatice não se lembrar, mas a vida do campo é tão sossegada que um guardador de rebanhos não tem margem para se organizar como deve ser ao mínimo sinal de inquietação.
Estava nestes considerandos quando o Zé Pedal (o carteiro da povoação) lhe trouxe mais uma carta, saindo da bicicleta com um sorriso de orelha a orelha, após mais uma exibicionista derrapagem controlada que levantou uma enorme nuvem de poeira.
Caeiro, encostado ao tronco de uma árvore frondosa, não achou piada nenhuma àquilo, mas já sabia que não adiantava de nada protestar. O Zé Pedal era jovem e tinha uma irresistível tendência para o exibicionismo. Até ao dia em que batesse com os cornos em algo duro ou um touro mais envinagrado lhe metesse os chifres pelo traseiro acima.
— Carta, Ti Caêro. Atão os carnêros, tudo na paz do Senhor?
— Tudo. Obrigado. Vê lá se andas mais devagar, rapaz.
— Um carteiro não tem vagar para andar devagar, Ti Caêro. A gente tem de dar ao pedal. As cartas têm de ser entregues com velocidade.

Alberto Caeiro fez que sim com a cabeça e o Zé Pedal lá saiu a toda a brida.
Olha, olha. Mais uma carta do Brasil. Isto é moda, não haja dúvidas. Ao olhar para o remetente, os olhos de Caeiro encheram-se de “irish mist” (brumas irlandesas, para quem não saiba irlandês). Mais do que de névoas húmidas portuguesas. O poeta tinha uma costela bem vincada de “irish afection countryside”. Quer dizer, uns afectos muito particulares e rurais. Irlandeses. Porque havia dois países com indiscutível veia poética: Portugal e Irlanda. Dos trigais portugueses subiam poemas aos céus todos os dias. E pelo meio dos trevos irlandeses rastejavam brumas e versos todas as madrugadas. E assim mesmo é que era bonito.
A carta vinha de um “pen friend” que não conhecia pessoalmente, ou seja, em Pessoa. Um “pen friend” é um amigo com quem as pessoas se correspondem. É favor não confundir com coleccionadores de canetas. Eu sei que a gente da cidade sabe estas coisas, mas para a malta do campo é conveniente falar devagar. Até por causa do calor.
“Estou sabendo que o amigo está de caminho para Manaus, a convite de Ribamar Mitoso. Disponha de meus modestos acomodamentos. Meu lar é simples, mas terei o máximo gosto em o receber. Será oportunidade para nos entroncarmos de afectos, descobrir nossas filiações poéticas intrínsecas. Se fôr de seu agrado, terei máximo prazer em lhe mostrar os pontos mais valiosos da cidade. Aguardo sua resposta. Receba um abraço grande, do seu:
Guimarães de Paula”.
Ai o caraças! Agora é que não dava mesmo para dizer não. Guimarães de Paula era um bom homem. Ganhara um prémio de poesia, mas nunca lhe publicaram “Os rebanhos da fuga”, uma obra construída ao longo de 40 anos. Nascido em Manacapuru, amazonense puro e idealista, tinha abdicado de ser escritor profissional por questões de sobrevivência. Era funcionário da Petrobrás. Fernando António vivia uma situação semelhante.
Guimarães, filho de Seu Raimundo e de D. Palmira, era um homem simples. Nunca se pusera em bicos de pés para publicar a sua poesia. Foi Guimarães de Paula quem fundou o Clube da Madrugada, que deu início ao Modernismo no Amazonas. Tinha tanto mais valor quanto era um autodidacta sem formação.
Alberto Caeiro meteu umas roupas na mala, pediu ao amigo Roberto Carneiro que se encarregasse temporariamente do mister da educação do seu rebanho, e infiltrou-se no Jumbo da Varig, algo receoso.

A viagem foi assim-assim. Caeiro entreteve-se a descobrir nuvens com forma de carneiros e ovelhas, enquanto a sua companheira de viagem, Teresa Rilhafoles, via nuvens em forma de baú por todo o céu.
À chegada, o átrio do aeroporto tinha uma pequena delegação à sua espera. Uma menina sardenta, de olhos azulados, mostrava um pequeno cartaz: “Seu Caeiro, aqui, por favor”.
Seu Caeiro aqui por favor deu-lhe dois beijinhos:
“Gostas de chocolates, pequena? Pois olha, estás com azar. O Álvaro ficou em Lisboa, a tomar conta da tabacaria. Mas pago-te um suco de côco, se quiseres”.
— Coco já não tem acento circunflexo, seu Caeiro!
— Não sejas contumeliosa, pequena. Percebo muito mais de cocos do que tu. Olha, toma lá os cocos que há: babão, baboso, cabeçudo, catulé, da baía, da praia, da quaresma, da serra, de catarro, de colher, de espinho, de indalá, de iri, de macaco, de palmeira, de praia, de purga, de rola, de vassoura, de zambê.
— E ainda faltam o coco-macaúba, o coco-naiá, o coco-peneruê e o coco-pindoba.
— E sabes o que é um coelho-rochense?
— Isso não, seu Caeiro.
— Pois olha, é habitante ou natural de Coelho da Rocha.
— Pôxa, seu Caeiro. Sabe demais! Onde é Coelho da Rocha?
— No Brasil não faço ideia. Em Lisboa é em Campo de Ourique.
A pequena conduziu Caeiro para uma carrinha e depositou-o numa esplanada. Alberto ainda estava à procura de coordenadas quando uma enorme salva de palmas se fez ouvir.
Um grupo de umas trinta almas aplaudia o poeta com genuína admiração. Depois, duas poetisas amazonenses ofereceram-lhe um enorme ramo de flores e convidaram-no a sentar-se à sombra, na cabeceira de um aglomerado de mesas de tampo verde, previamente dispostas.
Quem eram as poetisas? Mulheres de enorme alma poética, semelhante a Sophia ou Florbela. Os seus nomes? Querem saber tudo, não é? Está bem. Pois fiquem sabendo que se tratava de Lisiê Silva e Rose Clement.
Não conhecem como? Estão a gozar? Não?..
Bem, então a partir de agora ficam a saber que Lisiê Silva é poetisa amazonense de Manaus com direito a sítio e tudo. Qual sítio? Não é o sítio do picapau amarelo, olha que coisa. É sítio da rede. Não, nada disso. Tem um site na Net, prontos.
Um site muito cuidado. Abre-se o site e toca o “Borbujas de amor”, do Juan Luís Guerra. E há corações a voar por tudo quanto é sítio. Lisiê é “fascinada por paisagens naturais, pôr-do-sol, arco-íris, cachoeira, água, chuva, plantas, árvores, frutas, enfim, tudo o que faz parte da Natureza”. Profissionalmente é webmaster e webdesigner, mas poetiza umas coisas. Até teve o poema “Eu” escolhido para figurar na antologia “Poetas ocultos do Estado do Amazonas”.
Não se chegou a perceber se Lisiê Silva estava mais próxima do Sindicato Profissional dos Escritores do Amazonas ou da Associação dos Escritores do Amazonas. E ainda há Federações de escritores em Brasília e muitas agremiações mais. A poesia e a filiação clubística andam de braço dado num país de poetas, como Portugal e a Irlanda.
Rose Clement também tinha um site cuidado e foi com ela que Alberto Caeiro engraçou assim de repente:
— Sabe, eu nasci em Manaus, quando a cidade pouco conhecia asfalto e shoppings. Eram dias de missas fervorosas de domingo, folclore alegre e verdadeiro, tartarugadas aos domingos, peixe grande assado na brasa, nossos pratos típicos tão festivos, naquela vida simples que ia correndo doce como rapadura — confessou Rose, que tinha um sorriso sem espinhos.
— Maravilha! Olhe, o Guimarães não está por aí à minha espera?
— Não. Mandou dizer que só chega a Manaus daqui a três dias. Imponderáveis. Mas não se preocupe. Vamos tornar a sua estada o mais agradável possível. Antes de mais, vou recitar-lhe um poema meu, que se chama “Mercado Municipal”:
“No mercado grande o peixe/tem tamanho respeitável./É quando quem vende enrola/filé que dá bola,/que com grito meio amável/vende frescura no peixe.
Vê-se campos de bananas,/sol a dourar-se no milho,caminhos de macaxeiras,/vê-se alegres cozinheiras,/dando calor a um filho,/balançando as frigideiras.
Das frutas quer-se os segredos,/das folhagens, a promessa/que ervas, sim, tudo cura/e que qualquer criatura,/mesmo sem a fé expressa,/levará a crença nos dedos.
É mercadão e é retrato/da Manaus jovem senhora,/que o sol de selva, amarela,/abre portas e janelas/daquele que desde outrora/garante peixe no prato”.
— Minha cara Rose, a sua poesia é do mais apetitoso que tenho ouvido!
— ‘Brigada, viu, seu Caeiro!
— Trate-me por Berto, por amor de Deus! Vamos deixar-nos de cerimónias.
Estava o recém-descoberto Berto a fazer-se de olhares libidinosas a Rose (l’important c’est la rose, não é verdade?) quando uma voz forte invadiu a esplanada:
— “Sôfrega, alçando o hirto esporão guerreiro,/Zarpa.A íngreme cordoalha úmida fica.../Lambe-lhe a quilha a espúmea onda impudica/E ébrios tritões, babando, haurem-lhe o cheiro
Na glauca artéria equórea ou no estaleiro/Ergue a alta mastreação,que o éter indica,/E estende os braços de madeira rica/Para as populações do mundo inteiro!
Aguarda-a a ampla reentrância de angra horrenda
Pára e, a amarra agarrada à âncora,sonha!/Mágoas, se as tem, subjugue-as ou disfarce-as...
E não haver uma alma que lhe entenda/A angústia transoceânica medonha/No rangido de todas as enxárcias!”.
Caeiro ficou zonzo de tanta palavra desconhecida das gentes do campo. Sentiu saudades do Dicionário Torrinha e apeteceu-lhe de ânsias um shot de licor de alperce, lá do quintal, sem corantes nem conservantes.
Finalmente, encheu-se de coragem e levantou-se para cumprimentar o senhor que acabara de chegar em grande estilo:
— Mestre, permita que lhe ofereça esta “Nau” como pequena oferenda de chegada, embora em não seja um dos reis magos, muito menos um rei ou um mago. Mas gostaria que soubesse: farei todos os esforços para que seja um rei em Manaus, ao ponto de ir de regresso a Portugal a chamar-me mago — disse Augusto dos Anjos, envolvendo Caeiro num abraço quebra-ossos, à Bud Spencer.
Merda, se isto é tudo amizade, venham de lá os inimigos, pensou Alberto, que sorriu de nariz franzido pelas vicissitudes da vida quando Augusto o libertou, 30 segundos brasileiros depois. Quanto à “Nau”, quando ele era pequeno era uma água de colónia. Mas era inegável que a poesia de Augusto dos Anjos tinha um perfume rico e muito menos volátil que a “Nau” para acalmar as barbas rijas.
Rose introduziu Augusto dos Anjos:
— Berto, não se assuste com Augusto. Ele é mesmo assim. Sabe, ele cortou o próprio dedo para a capa de um livro já impresso. Já não tinha dinheiro para tinta. Ficou o título escrito em sangue: EU.
— Eu sou o Hamlet dos trópicos. A minha poesia é exagerada, está cheia de desesperos confessionais de um eu patológico e expressionista. Sou genial, mas tenho lampejos de um certo mau gosto e exageros barrocos. Estou centrado num certo naturalismo escandaloso e numa obsessão patológica.
— Não diga isso! — acamaradou Alberto Caeiro, tentando ser agradável.
— Não sou eu que digo. São os meus críticos — esclareceu Augusto, sentando-se ao lado de Caeiro e pedindo uma cerveja.
Pouco depois, chegou o último poeta: Cruz e Sousa, um “negão” com bom aspecto, filho de dois escravos de Florianópolis, em tempos chamada de Destêrro.
— Olha, vem aí o Poeta Negro! Senta aqui, Cruz, já aqui temos seu Caeiro, em carne e osso! — exclamou Augusto.
Cruz e Sousa, olhar marcado pela tuberculose e pelas dificuldades da vida, cumprimentou Caeiro com devoção e sentou-se com um sorriso ao mesmo tempo triste, meigo e esperançado.
— Anima aí, João, todo o mundo anda dizendo bem de seus “Broquéis”! Olha só, gente como Goulart de Andrade, Hermes Fontes, Adolfo Caminha, Cecília Meireles, Alphonsus de Guimarães, Silveira Netto, Murilo Araújo, Andrade Muricy, Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Souza Bandeira, Elói Pontes, Nestor Victor.
Os nomes que Augusto proferiu, ao estilo de equipa de futebol, ficaram a bater no cérebro de Caeiro. Rapidamente imaginou que Souza Bandeira bem podia ser um heterónimo partilhado por Cruz e Sousa e Manuel Bandeira. E que Alphonsus de Guimarães bem podia ser um heterónimo de Guimarães de Paula. Mas esta rapaziada não tinha muita queda para estas brincadeiras. Gostavam de escrever tudo em nome deles. Paranóias!
A tarde decorreu bem animada, mas com algum toque de guerra de sexos. Tanto homens como mulheres queriam monopolizar as atenções de Alberto Caeiro. A coisa resolveu-se por si só perto das 21 horas, já que se aproximava a “première” de “Tróia”, com Brad Pitt. As senhoras tinham muito respeito por Alberto Caeiro, mas apesar de tudo o poeta não conseguia competir com o Pitt, ainda que em celulóide.

A pouco e pouco, os outros poetas foram também abandonando o convívio de Alberto Caeiro. Restaram na mesa Augusto dos Anjos, Cruz e Sousa, Ângelo de Lima e Inocêncio Pinga-Amor, os últimos dois eram portugueses radicados há longo tempo em Manaus.
Comeram umas especialidades amazonenses e depois Augusto dos Anjos fez questão de instalar Caeiro no “Motel dos Inocentes”, Rua Frei José dos Inocentes, 369.
— Podia lhe levar para o “Cê qui sabe”, o “Le baron” ou o “Pousada del rio”. Mas você fica bem no “Motel dos Inocentes”. Sou amigo do dono. Ela terá champanha gelada para você, a troco de um poema inédito, quando estiver de saída, que ele vai colocar numa moldura. Já lhe prometi. Não vai me dizer que não.
As malas ficaram no motel. Depois, Cruz e Sousa despediu-se, apesar dos protestos de Augusto.
— Não seja assim, João. Vem prò forró por uma vez!
Cruz e Sousa não foi. A madrugada ficou por conta do quarteto constituído por Alberto Caeiro, Augusto dos Anjos, Ângelo de Lima e Inocêncio Pinga-Amor.
Começaram no “Badauê Clube de Campo” (mpb, pagode, samba, forró), em Tarumã; prosseguiram a arruada no “Boi Art’s - Arte do Boi Amozônico” (Shows de boi bumbá); estabilizaram no “Clave de sol”, em Adrianopólis.
Inocêncio Pinga-Amor não estava muito satisfeito. Em cada local onde paravam começava logo a dizer:
— Pronto, já se mostrou ao Caeiro. Vamos lá para o “Jet Set”.
Não que lhe interessasse o jet-set amazonense. O que lhe interessava eram os shows eróticos e de strip-tease do “Jet Set Night Club”.
— Bombas que cê é chato mesmo! — desabafou Augusto dos Anjos.
E lá foram todos para a rua 10 de Julho, caso contrário o Pinga-Amor não sossegava.
— O Caeiro também deve gostar de strip, não é, ó compatriota? — perguntou Inocêncio, com ar de tarado sexual.
Caeiro gostava de strip. A época de tosquia das ovelhas era algo que lhe dava particular prazer. E nem todos sabiam o toque de Midas de uma boa tosquia. Melhor do que Caeiro só um emplastro da Régua chamado Eduardo, por alcunha o “Mãos-de-Tesoura”. Que ciúmes, meu Deus!
No “Jet Set” a noite estava animada. As “minina” já tinham actuado durante bastante tempo, mas a noite era uma criança. O dia só nasceria três horas mais tarde. Tempo de sobra para desfrutar como deve ser o show erótico.

Ângelo de Lima encostou-se a um canto, a digerir a sua loucura. O ar estava impregnado com o acordeão de Richard Galliano, em brutais doses de spray musical que enchiam a atmosfera de “Sanfona”. Um “french touch” inconfundível. Puros 187 segundos de magia.
— Vai tomar alguma coisa, seu Ângelo? — perguntou uma empregada vestida como nos filmes de George Raft.
— Pode ser o mesmo.
— O mesmo de quem, seu Ângelo?
— O mesmo do gajo da música: um cálicezinho de Galiano.
Na mesa do lado, dois italianos sorriam perante a qualidade da música, as curvas das mulheres e o cheiro da vida a Chanel 5.
— Não me vou ralar mais, o que me resta hei-de gozá-lo até mais não poder, antes de sob as águas ir morrer. De tudo um pouco provo, e bem depressa. Percebes, Hugo?
Hugo sorriu. Percebia.
Ângelo meteu conversa.
— Isso tem uma certa poética. Mia soave... Ave?!... Almeia?!... Mariposa Azual... Transe!.. Que d’Alado Lidar, Canse... Dorta em Paz... Transpasse Ideia!... Hugo Pratt e Giorgio Baffo (famoso pelos seus sonetos eróticos e co-autor de um livro da Fenda com o banda-desenhista e viajante do mundo) pensaram que o homem era maluco. Mas não quiseram dizer nada. Não se deve contrariar. E depois, como contrariar o voo de uma mariposa azual? Ainda se fosse uma borboleta verde...
Augusto veio buscar Ângelo e pediu desculpa aos italianos.
— Nos desculpem. O nosso amigo tem alguns problemas, mas não é mau poeta. Incomodou-vos muito?
Hugo e Giorgio disseram que não. Augusto levou Ângelo pelo braço, a olhar para uma “minina” que descia a barra de ferro de cabeça para baixo, já em topless.
— Vamos nós, de braço dado, eu, que sou sonhador, e tu, ó meu irmão, que és marinheiro; tu que sentes a onda do mar a balouçar-te o corpo, a vida presa de um fio, e, quiçá, a alma, e eu que largo a imaginação no vasto mar do ideal, que a deixo embalar-se no ondear das quimeras, vamos nós, ó meu irmão, a devanear, e arrebatados nas nossas asas, brancas da pureza do nosso idealismo, pairar, pairar distante, à região do sonho. É uma meditação...
— Ângelo, se continuas com essas coisas deixamos de te trazer para a noite — ameaçou Inocêncio.
— Ó Caeiro, não está aborrecido connosco, pois não? Sabe, o Ângelo teve alguns problemas — esclareceu Pinga-Amor.
--- Não há problema nenhum. O Ângelo daria um excelente heterónimo. Infelizmente, a Pessoa S.A está a reduzir nos heterónimos e já começaram a deslocalizar pessoal. A senhora das limpezas, a Maria José, um heterónimo com tantos anos de casa, nem sequer foi poupada. Vejam lá que a puseram a vender pipocas nos cinemas.
Duas horas mais tarde, os poetas abandonaram o “Jet Set”, levando a tiracolo algumas “minina” de ar simpático, que estavam na rua a apreciar o luar, de vestidos curtos e alma invadida pela fadiga.
Augusto dos Anjos despediu-se à porta do “Motel dos Inocentes” e seguiu com uma loura para parte incerta. Inocêncio Pinga-Amor foi levar Ângelo de Lima a casa, pois nunca se sabia o que podia acontecer caso ele se pusesse a passear em peregrinações solitárias.
— Eu não estou doudo. Tenho sido manejado como um puro manequim. Por meio de venenos são-me senhores do cérebro.
Inocêncio Pinga-Amor encolheu os ombros de fastio e paciência e piscou o olho a Caeiro.
— Claro que não, Ângelo. Ninguém disse que estás doido.
— Não é doido. É doudo, como tintura de iodo.
— Sim, Ângelo.
— Já bebeste tintura de iodo, Pinga?
— Não, Ângelo. Ainda não.
— Devias beber. Fazia-te bem às cicatrizes no coração.
Jemper... trotivarius... devolveris... jejum... emoções... sempre... trotinetes... atum nos corações...
— Andaste a ouvir “Corações de Atum”, do Manuel João e do Galarza?
— Sei lá quem são. Jemper, trotivarius, devolveris...
— Pois, Ângelo. Agora vou-te pôr a casa.
— A casa não se põe. De noite, já se pôs. Nasce na alvorada.
Enquanto Pinga-Amor e Ângelo de Lima se embrenhavam na noite escura, Caeiro e uma “minina” de franjinha à Louise Brooks entraram no “Motel dos Inocentes”, onde ninguém era culpado de nada, mas todos os cremes eram premeditados. Desde o creme de amêndoas doces e lanolina para as massagens até ao tulicreme das tostas para o pequeno-almoço.

O quarto era agradável e Caeiro ficou de boxers, deitado em cima da cama, enquanto a “minina” foi para o jacuzzi e começou a chamar insistentemente por ele:
— Vem, amô! Cê ‘tá fazendo o quê? Vem! Ti faço um chamego...
— É só um momento. Tenho de dar um inédito para o dono do motel. O Augusto prometeu-lhe...
— Não demora, não? Sua gatinha ti ispera... viu?
— Vi.
O que Caeiro não estava a ver era uma única palavra na folha de papel em branco. Finalmente, saiu tudo de um jacto.
“Li hoje quase duas páginas/Do livro de um poeta místico,/E ri como quem tem chorado muito.
Os poetas místicos são filósofos doentes,/E os filósofos são homens doidos.
Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem/E dizem que as pedras têm alma/E que os rios têm êxtases ao luar”.
Depois, serema e distraidamente, Caeiro entrou de boxers, peúgas e chapéu no jacuzzi, para grande choque da “minina” com franjinha à Louise Brooks, que se pôs a lavar meigamente as costas do poeta.
— Mi conta coisas sobre você.
— Não há muito a dizer. A 8 de Março de 1914 acerquei-me de uma cómoda alta, e tomando um papel comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim.
— Mi conta mais di cê.
— Abri com um título, “O guardador de rebanhos”. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase:aparecera em mim o meu mestre.
— Amô, não tenho di lhe disculpá nada. Eu tô aqui prà cê. Tem alguma fantasia sexual favorita?
— Tenho. Gostava de fazer amor com a “Dolly”.
— A Dolly Parton?
— Não. A minha ovelhinha.
— Sabe, amô, eu sou do Rio. Não há nada como um suruba carioca. Mas com ovelhinha nunca vi.

E enquanto Caeiro estava no “jacuzzi” com a “minina” carioca de franjinha à Louise Brooks, Pinga-Amor tentava levar Ângelo para casa.
— Anda, Ângelo. Levanta-te do chão...
— Nortex, Sulex, Estex, Oestex, a rosa não era dos ventos...
— Sim, eu também não sou daqui.
— Ninguém é de lado nenhum. Charimbum, charimbum, bum-bum. O meu boi morreu, que será de mim?
— Olha, eu sou é das Avenidas Novas, em Lisboa. E não me importava nada de lá estar agora.
— Manaus. Manaus, naus, caravelas, galeões.Galeões, um “bouquet” de galeões. Mas galeões não rima com testículos.
— Por que raio havia o meu pai de ter nascido em Manaus, num sótão com jibóias? E por que raio havia de me deixar um casarão em herança ao pé da Ópera? Mas eu não podia passar férias em Porto Seguro, como as pessoas normais, em vez de me ter radicado em Manaus?
As noites de Manaus não são más. São apenas habitadas por loucos, criaturas abençoadas por Deus.
— Uma vez disse a Deus: posso tratar-te por Manitu?
— Sim, Ângelo. E Deus que respondeu?
— Nada de confianças.

Von Grazen, 25/7/2004, 05h39m

Doping: Água do Luso/Smarties/um pinheirinho Hagen-Dasz.
CDs: “The eminent JJ Johnson”(duas passagens)/ “French Touch (Richard Galliano)/ “Piazolla forever” (Galliano).

Domingo, Janeiro 07, 2007

A hidroginástica não é para senhoras

A convite do seu Criador, o grandiloquente Fernando António, Sua Excelência o heterónimo Álvaro de Campos resolveu iniciar-se nas artes científicas da hidroginástica, uma disciplina com os seus quês de imersão.
Fernando António era sócio de mérito do “Dissolves Place”, pelo singelo motivo de não ter falhado uma única aula de hidroginástica desde a abertura do clube. E sendo deste modo as cousas, ganhara uma medalha de mérito desportivo demolhado e o direito de convidar um amigo de 15 em 15 dias. Assim como o “Dissolves Place” frequentemente promovia sessões de Open Day (como o nome indica, um dia consagrado às actividades para sócios e não-sócios), também organizava iniciativas específicas de hidroginástica, denominadas de “Open Tanque”.
Chegara então a vez de convidar o seu grande amigo Álvaro de Campos, um dos heterónimos da criação de Fernando António, com quem vivera já muitos períodos de intensa alegria e também bastas desilusões de carácter literário e vivências sortidas, que estas cenas não se controlam. Era bom, era...
À las doze del médio dia (é assim que dizem nuestros brothers, obnubilando-se, por obséquio, alguma falha ortogonáfrica, não liguemos a coisinhas miúdas) Fernando António e Álvaro de Campos chegaram à recepção do “Dissolves Place”, uma hora antes do início da aula.
Convém dizer que as aulas de hidroginástica tinham um limite de sócios-imersores, como fatalmente teria de ser, caso contrário qualquer aula se transformaria facilmente em suruba neptuniano de contornos politicamente duvidosos.
Um sorriso radiante (todos os recepcionistas tinham sorrisos radiantes, era norma da casa) esperava pelos dois amigos no marmóreo “hall” de Carrara.
— Então, Sr. Fernando, era uma senhazinha para a hidro, para variar...
— Desta vez são duas, Prudência. Uma é convite para o “Open Tanque”.
— Ai, este senhor é muito parecido consigo. Se me permite a pergunta, são familiares?
— Este senhor é o Álvaro de Campos. É como se fosse meu irmão. Já palmilhámos muito por este país. Homem sério e recheado de méritos. Hoje vem experimentar a hidroginástica.
— Faz o senhor Álvaro muito bem. Vai ver que se sente logo outro mal saia da água.

(Numa bichanada aos leitores, coisa rápida, já se vê, que o conto ainda vai no adro, podemos dizer que com o Nogueira Pessoa não havia problema nenhum em construir o Outro)

O cartão “Dissolves Place Very Special Gold Platinum” passou dos dedos finos e habituados à escrita de Fernando António para os dedos sensuais de Prudência, uma ruiva de olhos verdes, que augurava tempestades de intercâmbio de carnes a quem fosse bafejado pelos ventos da fortuna.
Foi também através da intermediação dos dedos de Prudência que duas senhas de hidroginástica transitaram do cofrezinho da recepção (todas as senhas estavam fechadas em cofres) para as mãos de Fernando António e Álvaro de Campos.
Fernando António tinha direito a senha personalizada, com a sua foto. Álvaro de Campos recebeu uma senha a dizer “Dissolves Place Guest”. No verso tinha uns dizeres de boas-vindas. “Olá, estamos ansiosamente à espera do seu sorriso todos os dias. Há caracóis. Não se fia”.
A passo lento e literário, começaram a dirigir-se para os balneários, que se situavam dois pisos abaixo, num “bunker” à prova de vendedores de flores e arrumadores toxicodependentes.
— Olha lá, o que é que eu faço com isto, agora? — perguntou Álvaro de Campos, a estranhar o “Dissolves Place”, como quem se deita pela primeira vez numa cama que não é sua.
— Então, está bem de ver. Agora dás a senha à professora de hidroginástica.
— Então não se podia ir para a aula sem senha? Tu já passaste o cartão na entrada...
— Claro que não. Vê-se mesmo que não percebes nada de clubes finos. As aulas de hidroginástica têm um limite de imersinhos. Só dá para 250 de cada vez, que a piscina não é grande.
— Por acaso estou um bocado curioso. E também te confesso algum nervosismo.
— Não te preocupes. Sabes nadar?
— Não faço ideia. Não referiste esse pormenor no meu currículo?
— Olha lá, tu tens de andar com a cabeça no sítio. Se eu fosse a saber da vida de todos os heterónimos era chefe de Redacção da “Caras” ou da “Lux Woman” ou da “Flash”.
— Não me lembro, pá. E tu também devias ter atenção a estas coisas. Afinal, eu não sou um heterónimo qualquer. Faço parte dos heterónimos de estimação.
— Mas tu pensas que és mais que o Robert Annon ou o Jean Seul de Méluret?
— Estás para aí a atirar-me como nomes para ver se me baralhas. Esses heterónimos nem sequer existem...
— Por acaso existem. Só para não te armares em esperto.
— Então diz lá quem são.
— Agora não tenho pachorra para te aturar. Ainda temos de nos equipar, fazer sauna, banho turco e tratar das unhas, antes de ir para a hidroginástica. Olha lá, trouxeste touca?
— Touca? Qual touca?
— Olha, uma touca de cabeleireiro! Porra para o homem, parece que é estupidozinho da carola! Não podes entrar na água sem touca. Eu disse-te para trazeres uma touca.
— Não disseste, não senhor.
— Pronto, se não disse...não disse. Mas devias saber que em todas as piscinas é preciso touca.
— Tu é que crias os heterónimos. Tu é que deves tratar de tudo.
— Olha lá, mas tu pensas que eu sou o teu pai? Também queres o rabinho lavado com água de rosas?
— O rabinho lavado com água de rosas dispenso.

(Ainda a título meramente especulativo, fala-se que o “Dissolves Place” tem a intenção de criar uma actividade em que o rabinho dos sócios é lavado com água de rosas. A actividade chamar-se-ia “Rose Water Clean Ass”)

Já nos balneários, Álvaro de Campos insistiu com Fernando António. Um criador de heterónimos é um verdadeiro pai literário. Responsável por tudo o que lhes acontece. Obrigado a uma omnisciência divino-literária, sob pena de cair do Olimpo dos génios para a Chelas da escrita.
Fernando António tirou do saco de desporto (comprado no “Dissolves Place”, em tons de rosa-choque e doirado) um cadeado doirado e verde-alface. Álvaro de Campos ficou a olhar para ele, espantado. Fernando António mirou-o de alto a baixo, teve um lampejo de clarividência e desabafou:
— Não me digas nada. Também não trouxeste cadeado?
— Eh! pá. Desta tenho de fazer mea culpa. Lembro-me de me teres avisado.
— Noutro dia até podias ficar com as coisas aqui no meu cacifo privado. Mas ontem trouxe para cá uma colecção de fotos pornográficas da Ofélia e uma colecção de miniaturas da Solido e da Corgi Toys.
— Então e agora?
— Agora vais à recepção e pedes um cadeado dos mais baratos. Diz para meterem na minha conta. Depois pago com um poema. Pode ser aquele que é assim: “Gato que brincas na rua/Como se fosse na cama,/Invejo a sorte que é tua/Porque nem sorte se chama”.
— Isso é muita mau. ‘Tá bem que estes gajos têm uma quotas caras, mas também não é preciso descer o nível a este ponto. Estás a ser ordinário.
— Vê lá se queres levar uma lamparinada nas trombas. Em primeiro lugar, tu é que te esqueceste no cadeado. E depois o poema está publicado na colecção da Ática, que formou muita gente por este país fora.
— Eu sei que és bom, meu, mas deves reconhecer que há coisas más na tua obra. O conto do Hemingway com um gato também é uma tanga.
— Qual conto?
— “Um gato à chuva”. É o gajo a ver um gato à janela, está a chover e depois o gato vai-se embora.
— É só isso?
— Pelo menos é do que me lembro.

(A memória prega-nos partidas. Mas já se constatou que o Campos tem má memória. Esquece-se de toucas e cadeados, por que diabo não se havia de esquecer de um conto de Hemingway a rasar o banal? O conto “Um gato à chuva” ocupa as páginas 115 a 119 do livro “As torrentes da primavera, seguido de Um gato à chuva”, Livros do Brasil. Fala de um casal de americanos de férias em Itália e a chavala quer ir buscar um gato que está na rua a molhar-se. E acaba assim: “A criada surgiu à porta. Apertava nos braços um enorme gato, cinzento como uma carapaça de tartaruga.
— Queiram desculpar. O patrão mandou-me trazer isto para a Signora.)

Álvaro de Campos dirigiu-se à recepção e escolheu um cadeado posto recentemente à venda no “Dissolves Place”. Um modelo barato (apenas 133 euros e um cêntimo), com duas assoalhadas e casa de banho privativa. Com um nome sugestivo “Proibida a entrada a pessoas estranhas ao serviço”. Na compra de dois cadeados, bónus de uma embalagem de Ketchup Light.

Álvaro voltou ao balneário e Fernando António já envergava uma touca cor de malva e uns calções da famosa marca aquática “Ardenas”. Modelo Verão 2006/2007. Um padrão discreto, com muito êxito: Safari. Castanhos e pretos às risquinhas, com uns olhos verdes de pantera a espreitar por cima de cada testículo.
Álvaro quedou-se por uma opção mais discreta. Uns calções pretos de marca branca, com elástico flácido e ar de quermesse de Natal.
— Por tua causa já não temos tempo de ir à sauna, ao banho turco e às unhas. Vamos já directos para a piscina. Não te esqueças do código do cadeado. Agora vê lá se também se te esqueces de um código com dez algarismos — bradou Fernando António, a destrambelhar-se de desatinos com o Campos.
Os cadeados do “Dissolves Place” eram uma coisa a sério. Com um código de dez algarismos era muito mais difícil a um sócio mal intencionado locupletar-se com o produto de um esbulho. Fernando António ficou no seu cacifo privado (número 666) e Álvaro de Campos estacionou no adjacente leste.
Percorreram em silêncio os 600 metros de curvas e contracurvas do balneário, no caminho para a piscina. O vapor de água gemia obscenidades em dolby stereo, sussurrando às imaginações mais delirantes jogos de dominação, discussões sobre o futuro de Portugal, quedas em decúbito dorsal, amizades florescentes a caminho do banho.
— ‘Tão? Tudo bem? — saudou Fernando António um sujeito forte, espadaúdo, bastante bronzeado, de cabeça grande, que lhe fungou qualquer coisa imperceptível com um ar amigável, mas ainda assim preocupado. Talvez frustrado fosse o termo mais correcto para descrever o seu estado de espírito.
Quando o corpanzilóide se afastou, Fernando António piscou o olho a Álvaro e perguntou-lhe:
— Não reconheceste?
— Osborne?
— Não, estúpido. Era o Minotauro. Anda à procura da saída desde a última aula de hidroginástica, a semana passada. Os sócios têm-lhe dado umas barras energéticas, o Andrew arranja todos os dias um farnel de ração. O gajo anda por aí até atinar com o caminho certo.
— Não era mais fácil vir um empregado e levá-lo para a saída?
— Isso dizes tu. O gajo é susceptível. Tem um mau feitio do caraças. Parece que armou um ganda banzé numa discoteca de Creta, com amigos, há uns anos. Todos levaram nos cornos.

Os sinais de piso escorregadio multiplicavam-se pelos túneis dos balneários, mas mesmo assim vários sócios se contorciam em agonia, enquanto as sirenes da emergência médica se ouviam, provenientes da recepção, num vaivém assistencial louvável.
Caído numa das últimas curvas antes de chegar à piscina estava José Láchego.
— Então, ó Láchego?
— Não se preocupem. É entorse sem derrame. Daqui a dois dias já estou a dar-lhe nas bicicletas. Resisti às torturas da PIDE, não são estes balneários que me vão quebrar.
— Estimei vê-lo. As melhoras. Este aqui é o meu amigo Álvaro de Campos.
— Muito prazer. É uma pessoa com muito talento. O meu camarada Manel Eufórico já me recitou uns poemas seus. Gosto particularmente daquele que é assim: “O descalabro a ócio e estrelas.../Nada mais.../Farto.../Arre...”.
Fernando António gostou de sentir o ego afagado e agradeceu em nome de Álvaro de Campos.
— És muita cabrãozinho. Eu sei que tu é que escreves os poemas, mas se não resolves assinar e me concedes a autoria, o mínimo é que me deixes agradecer os elogios em público — protestou Álvaro, amuado.
— Vê lá se atinas. Heterónimos tenho eu ao quilo. Heterónimos e gajas. Porta-te mal e eu ponho-te a trabalhar no McDonalds. Para não dizer: “Ó seu grandecíssimo e alternadíssimo camelo, eu dessincronizo-lhe as trombas e arranjo-lhe um lugar no desemprego”.
— Isso é do António Silva. Não me lembro é do filme.
— Eu gramo à brava do “Leão da Estrela”.
— Pois é. Um bálsamo para a alma. O Sporting avia sempre o FC Porto, cada vez que vejo o filme.
— Não te rias muito. Ouvi dizer que o Pinto da Costa já está a conspirar com o Manoel de Oliveira. Vão fazer um “remix”, uma versão exclusivamente em “slow motion”. As bolas levam tanto tempo a caminho da baliza que nunca se chega a ver um golo do Sporting. Conheces a teoria do filósofo Zenão de Eleia? Aquele que diz que não há movimento?
Vinte minutos depois, Fernando António e Álvaro de Campos chegaram à piscina, onde 127 sócios já estavam a aquecer dentro de água. A senhora Amália, de xaile preto, vendia binóculos aos associados e apregoava o seu produto em ritmo de fado:
— Olhó binóculo fresquinho! Olhó binóculo fresquinho! Dá sempre jeito! Dá sempre jeito!

E dava. A piscina do “Dissolves Place” da Rua 32 de Outubro (a entrada era pela Rua Miguel Canhões, mas a designação formal era a da Rua 32 de Outubro, vá lá perceber-se as mulheres...) era jeitosa, com 100 metros de comprimento por 30 de largura e uma profundidade de 5 metros e 20, para que ninguém se sentisse inibido.
Não se podia mergulhar estilo “Arrefinfa-neles”, “Aqui-vai-disto”, “Flipper” e “Maralhal Encorpado”. Também havia multas para quem urinasse, defecasse ou ejaculasse na água. Cuspir também não era bem visto, mas constituía uma lacuna legis do regulamento do clube, por isso havia sempre quem aproveitasse para aviar uma escarradela, enquanto a situação não era corrigida:
— Sai lagosta ao preço!
E toma lá fresquinho, com a viscosidade verde-feijãozinho a navegar pelos 100x30 metros do rectângulo aquático.
— Anda, temos de tomar um duche e ser fustigados 30 segundos por um chicote de tungsténio da última geração — proferiu, seráfico, Fernando António.
Os dois amigos passaram sucessivamente pelos duches “Bacanal” (bastante quente) e “Nice” (bastante frio), depois foram fustigados durante 30 segundos por um chicote de tungsténio da última geração, nas mãos sábias e compadecidas de Terezza Ripa-Holmes.

(Explicação científica: o fustigarium com chicotes de tungsténio é óptimo antes da imersão numa aula de hidroginástica. Provoca um fluxo de termo-acumuladores neuroniais, titila suavemente o ventrículo esquerdo em jactos de hidrofatelose, depois obriga o organismo a adaptar a sua temperatura ambiente ao ar condicionado da sua condição psicossomática, ou psicodimunitiva, conforme a constituição do indivíduo e a posição do parto).

Entraram na água em boa altura. A anaconda que matara por constrição (e não fizera nenhum acto de contrição depois da marosca do enrosca) cerca de uma trintena de associados (na última semana) tinha sido finalmente cercada pelas forças de intervenção aquática. Cinco minutos depois foi retirada em braços, a vociferar:
— Vão ter notícias do meu advogado. E podem esquecer os esquemas do “Feel Fit! Feel Light”. Eu tenho um personal trainer sexual, não preciso do “Dissolves” para nada. E as imersinhas estavam cheias de celulite. Vão ter notícias do meu advogado!
— Há gente que não se sabe comportar — disse Fernando António, com mais compaixão do que desdém.
Dez minutos depois de um saudável chapinhanço que agradou sobremaneira ao “rookie” Álvaro de Campos, a professora Joana irrompeu na piscina com um megafone:
— Sai de cena quem não é de cena!
Dois reformados que estavam a jogar à bisca lambida a bordo de um sofá pneumático abandonaram a piscina, um tanto contrariados, assim como um esquimó especialista em Física Nuclear, uma artista de circo que preparava um doutoramento em Literatura Americana e um elemento dos La Fura del Baus.
A professora Joana usava um top preto escuro e calcinhas tipo licra, da mesma cor, mais apertadas que o elevador de Santa Justa. Os ténis eram de molas insufláveis. Puxou o cabelo para trás e apanhou-o em rabo de cavalo. No caso, puro-sangue árabe. Tinha ainda em pleno centro do umbigo um elegante piercing-espiral, que lhe dava ainda maior brilho. Podia-se mesmo dizer que a professora tanto podia aclimatar-se à piscina do “Dissolves Place” como aos canais de Veneza. Embora cheirasse bastante pior nos canais de Veneza e Joana preferisse paragens exóticas, como a Tailândia, para passar o Carnaval.
Dirigiu-se ao DJ Juka Box e indicou-lhe o estilo de música que queria para a aula de 45 minutos.
— Boa tarde, Juka. Hoje vamos começar com “Lady Marmelade” e acabar com “Norah Jones”, na fase em que eles estão nos exercícios dos patinhos, para ir para a caminha. Não quero nada mais hip-hop, como a Carla usa de vez em quando.
Precisamente nessa altura, Carla Gonçalves entrou na piscina, sacou o megafone das mãos de Joana e gritou:
— Máximo! Máximo! Máximo!
Uma série de imersinhos começou a mexer-de dentro de água em grande velocidade, mas Joana mandou parar. Tinha sido um equívoco. Carla estava apenas a chamar um amigo, de nome Máximo Conti.
— Tens uma chamada telefónica na recepção. Posso dizer que atendes dentro de 15 minutos?
— Isso é muito apertado. Dá-me vinte minutos, para ir a correr com calma.
— Este gajo é o Máximo — disse Fernando António para Álvaro.
— Já tinha percebido — respondeu o heterónimo do ortónimo.

A aula estava prestes a começar. Mas antes disso era preciso controlar as senhas de presença, que estavam dispostas no banco de ripas madeiradas ao longo dos 100 metros de comprimento da piscina. Ao lado, toalhas desmaiadas amorteciam-se de fleumas.
Joana começou a apontar para as senhas e a perguntar:
— De quem é esta senha? E esta?
Os imersinhos usavam então os binóculos anfíbios vendidos pela D.Amália, presos ao peito por uma tira de bom cabedal (também vendida a 50 euros no clube). Lá se iam acusando.
Meia-hora depois as coisas estavam quase terminadas. Mas há sempre um mas.
— Desculpem, mas eu só tenho aqui 250 senhas e estou a contar 251 pessoas na água. Não posso começar. É muito aborrecido, mas tem de ser assim, por uma questão de ética e deontologia aquática.
Um sujeito baixinho, de olhos papudos e tez amarela, começou a suar frio e a ganir. As forças de intervenção aquática perceberam imediatamente quem era o infractor e arpoaram-no com um dardo limitador de insubordinações, importado de Los Angeles. O malandro foi retirado da água hirto e firme que nem uma barra de ferro. Já não era a primeira vez que Alexadrino do Oz tentava entrar na aula de hidroginástica sem senha.
— O que vai acontecer-lhe? — inquiriu, curioso, Álvaro.
— Provavelmente abatem-no. Ou então é convidado para um programa de televisão — respondeu Fernando António.
Juka Box fez soar os primeiros acordes de “Lady Marmelade”. Joana já tinha instalado o microfone individual.
— Experiência: Bruxelas, Estocolmo, Danone de pêssego... fuuuu... está a funcionar... todos me estão a ouvir bem?
— O quê?!? — perguntou um pianista alemão de nome Beethoven, fanático da hidroginástica e dos discos de Mozart.
— O meu nome é Joana. Bem-vindos à aula de hidroginástica. Está aqui alguém pela primeira vez?
Álvaro de Campos levantou o braço. Joana falou para todos, mas com especial incidência no novato.
— Podemos fazer uma aula mais puxada ou mais empurrada. O mais importante é manter o calcanhar no chão, como muito bem executa o senhor Aquiles. É muito importante para não forçar os gémeos Castro. Tronco direito, peito para fora, barriga para dentro, nada de piscar o olho às miúdas, moderar nos pirolitos, não esquecer de respirar de vez em quando, obedecer aos pais, respeitar os superiores.
Como o nome indica, a hidroginástica é ginástica para engenheiros hidráulicos, executada dentro de água, sem grandes engenharias corporais. Mas hoje em dia o conceito alarga-se a todas as pessoas e aos políticos.
Vão ter de me dizer os vossos 250 nomes, para ver se eu já consigo identificá-los no final da semana. Já fixei o Luís, que se porta sempre bastante mal e ainda não se afogou, apesar das promessas e o estilo boçal com que se relaciona com o meio aquático.
O senhor novo... sim... Álvaro, não é?... desculpe, não pode fazer a aula com esse chapéu na cabeça... pois, eu percebo que é o chapéu que usa sempre quando está sentado na brasileira, mas a sua vida sexual não pode interferir com as minhas aulas... pode dar o chapéu a um dos 30 empregados de limpeza que andam aqui à volta da piscina, nas pausas da venda de droga aos sócios... eles levam para o bengaleiro e recolhe o chapéu à saída, por apenas 5 euros.

Motores em marcha, 500 mãos e pés em movimento, a aula de hidroginástica já não era possível de parar.
— Leva o joelho ao peito, puxa bem... (Joana dixit).
Aconteceu logo a desgraça. Álvaro de Campos deu uma joelhada no peito de Fernando António.
— Estúpido! Leva o joelho ao peito, mas é em ti...
— Chuta! Chuta! Chuta à frente! (Joana dixit).
Um toxicodependente não resistiu ao convite, tirou a seringa de dentro dos calções, preparou o ‘caldo’ e mandou para a veia. A brigada interveio e levou o sócio janado para fora da piscina.
— Mas foi a Joana que disse! Mas foi a Joana que disse! Perguntem-lhe! Perguntem-lhe!
— Passa a esqui! (Joana dixit).
Um italiano de nome Alberto Tomba começou a rir-se às gargalhadas, de forma completamente louca.
— Passa ski! Si, má ké bello. Passa ski. Veramente bella!
A meio da aula, falhou uma porta de passagem e foi desqualificado.
— Porca miséria!
— E agora polichinelo! Grande! Abre bem os braços. Meninas, fechem bem as pernas. Há 250 pessoas dentro de água. A brigada não consegue controlar toda a gente. A hidroginástica não é para senhoras. Há aqui alguma grávida? Não? Tenham cuidado, pode haver no final da aula.
Agora circula à volta da piscina. Vem em passo de corrida, buscar o material. Não pára nunca, para o coração não sentir o choque.
— Phoda-ze que esta merda é puxada! — desabafou Álvaro de Campos.

(Desculpem. Não foi possível retirar esta frase antes de ir para a gráfica. Tem a ver com os processos de produção. Não é por medo de censurar o autor, esse palhaço às riscas)

— Não é nada puxada. Puxada é a RPM e o Pôncio Pilatos — disse Fernando António.
Nessa altura, na hora de ir buscar o material, Fernando António fazia sempre uma pausa para Kit-Kat e um bagacinho. Saía da piscina, dirigia-se à ‘pochette’ que deixara junto da toalha e mamava-lhe com gente grande.

(Questiona-se filosoficamente se Pessoa era gente realmente grande. A altura verdadeira de Fernando António Nogueira Pessoa não era lá grande coisa, mas como escritor foi enorme. E como vulto da cultura portuguesa até faz sombra ao Marão).

— Senhor Fernando, cuidado com o bagaço! Ainda dá cabo de si. É bastante contraproducente no meio da aula... (Joana dixit).
— Engana-se, minha senhora! A água é que dá cabo de mim. Ainda se fosse água-pé, agora esta água, em que nem tenho pé... deixe-me que lhe diga uma coisa: quando manda fazer os exercícios em suspensão... isso é promessa ou quê? Deve ser a gozar! Então a piscina tem mais de cinco metros...
— Sabe, a piscina estava planeada para 1 metro e 20, mas houve um anão que protestou e disse que era muito profunda. O administrador do clube em Londres embirrou com o anão e disse: “Ai é? Então agora vai ficar com 5 metros e 20, para o gajo aprender a mandar vir!”.
— Então e agora? O anão não se fez sócio?

(Não, efectivamente o anão não se fez sócio. Hoje em dia, Toulouse-Lautrec é mineiro, à noite regressa a casa, pelo meio da neve, com mais seis companheiros de trabalho e faz ginástica com a menina Branca).

— Vamos, cada um leva um esparguete e vai até ao outro lado da piscina! (Joana dixit).
— Já começo a perceber para que são os anúncios do Ketchup Light no átrio do clube. Este esparguete também é leve como o caraças. É pena só haver em cinza e rosa...
— Deixa lá isso, Álvaro. Concentra-te. Descontrai. Aproveita a aula.
— Eu gramo é as gajas. Olha aquela ali, de fato vermelho, a fazer-me olhinhos.
— Ó Álvaro, deixa lá a Pamela Anderson.
— Como é que sabes que é a Pamela Anderson? Sabes lá se é loura. Está de touca!
— Não vês que num raio de cinco metros não há ninguém à volta dela, por motivos de espaço?
Joana mandou toda a gente passar a esqui.
— Vira para a luz! Vira para o jacuzzi! Vira para a frente! Vira para o material!
Nesta fase da aula, as mulheres viravam-se mesmo para a zona onde o material estava guardado (esparguetes, aquafit, halteres), os homens viravam-se para Pamela Anderson, o que provocava sempre confusões, afogamentos e ataques cardíacos.
— Agora uma novidade. Vamos usar halteres, esparguete, aquafit e colheres de pedreiro, tudo ao mesmo tempo!
Fernando António ficou desconfiado e sussurrou para Álvaro:
— Esta das colheres de pedreiro leva água no bico. Vais ver que ainda nos cravam para construir mais um “Dissolves Place”. Estão a crescer como cogumelos. Olha, o Luís até esteve a dar autógrafos no Quintal da Loura, ao pé do autódromo do Terroril.
— Esse gajo escreve alguma coisa de jeito?
— Tem dias. Olha, aqui já vai em 24 mil 842 caracteres, só neste conto.
— Contando com a tua última fala?
— Não, sem a minha última fala.
— Mas o gajo ganha à linha?
— Não, isso era o Eça de Queiroz.
— Esse gajo escrevia melhor do que o Luís, não era?
— Isso é muito discutível.

Tudo tem um fim. Até mesmo uma aula de hidroginástica. Depois toda a gente segue até ao jacuzzi. É a hora da intimidade e das confidências. Álvaro de Campos não resitiu, pôs-se de pé e declamou:
— Ora até que enfim... perfeitamente... cá está ela! Tenho a loucura exactamente na cabeça. Meu coração estoirou como uma bomba de pataco, e a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima... graças a Deus que estou doido!
Fernando António, muito enfadado:
— Já acabou, ó heterónimo?
— Não, acabou foi o conto. O poema acabava em “ Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia, comia-o. Com esforço, mas era para bom fim. Ao menos era para um fim. E assim como sou não tenho nem fim nem vida...”.
— Isso é um bocado Monty Python.
— Pois claro que é. Por que é que pensas que eu gosto de Fernando Pessoa?

Terça-feira, Janeiro 02, 2007

Paris é uma festa

Podiam lá falhar uma coisa daquelas!
No dia 5 de Outubro de 1889 (ainda não era feriado em Portugal) abriu o “Moulin Rouge”. O conde Henri de Toulouse-Lautrec-Monfa, muito senhor do seu nariz e de uma estatura moral de 1 metro e 52, compareceu. Obviamente acompanhado pelo seu novo amigo português, Fernando António.
— Sabe, Fernando, vou fazer um cartaz sobre o estabelecimento. Mas gosto de fazer as coisas calmamente. Só deve estar pronto daqui a uns dois anos...
E como conhaque era conhaque e trabalho era trabalho, Tê-Éle gostava de alternar, com vantagem nítida do lado do conhaque. O “petit monsieur” cedo se deixou embalar pelos torpores do álcool, já que a vida resolvera ser-lhe matreira.
— Sabe, Fernando, se as minhas pernas fossem um pouco mais compridas nunca teria sido pintor. O meu pai gostaria de me ver na carreira militar. Bah! Não se lhe pode ligar muito. Ele e a minha mãe são primos. Estava-se mesmo a ver que eu não podia sair normal.
Fernando António ouvia muito mais do que falava. Até porque o seu francês não era nada por aí além. Era mais “barra” em inglês, por causa de ter vivido na África do Sul.
Falar também não era o mais importante no dia de abertura do “Moulin Rouge”. Nicole Kidman, deslumbrante, excedeu todas as expectativas no seu número de sexo ao vivo com Tom Cruise e Ewan McGregor. Em delírio, Tê-Éle proclamou:
— Estão a ver? Dois rapazes pequenos em tamanho mas grandes em talento! Portugal é grande! Portugal é grande!
Fernando António agradeceu, fazendo notar, ainda assim, que Nicole era australiana, Cruise americano, McGregor escocês e o “Moulin Rouge” francês.
— Isso agora não interessa nada! País que tem o meu amigo como poeta só pode ser um grande país e dou-lhe as vivas que me apetecer! Viva Portugal! Viva a República!
Algumas horas e muitas garrafas de champanhe depois, Tê-Éle e Fernando António saíram abraçados, com o pintor impressionista muito impressionado com um catálogo sobre as rolinhas devassas de Paris.
— Olhe, Fernando, ouça-me com olhos de ver. A páginas tantas, melhor dizendo, a páginas 37 temos a Condessa de Charbannes, da Rue Delaborde, 46. Morda-me esta cena, por obséquio:
“Dizem os antigos historiadores que Nero estava determinado que todas as partes do seu corpo deviam ser defloradas e prostituídas. O seu exemplo foi seguido até aos dias correntes, mas duvidamos que tenha existido mais meritória discípula do que a senhora que ora referimos. Não existem mistérios do deboche que tenham segredos para ela; é o verdadeiro brinquedo do libertino que, nos seus mais selvagens sonhos e pesadelos de novidades eróticas e devassas posturas, jamais imaginou uma parceira mais adequada. É uma mulher baixa, corpulenta e bonita e parece ter cerca de trinta anos. Morena, com olhos intrigantes, boca ousada e boa figura, está bem preservada; e, quando vestida e à luz, parece ter pouco mais de vinte e cinco. Muitos amantes passaram já pelas suas coxas de marfim; príncipes e pobres já encheram a barriga, mas ela nunca pára. O dinheiro derrete-se nas suas mãos proporcionadas e viu-se tantas vezes despojada das suas mobílias que se tornou perita nos sofismas das leis relativas a inquilinos e senhorios. Apesar da vasta experiência, continua pronta a dar ouvidos a qualquer homem bem vestido e a sua surpreendente confiança na honestidade do sexo masculino leva-a a ser continuamente defraudada por gente sem escrúpulos. É grande amiga de Antoinette Duret e vão juntas à caça. O seu título de condessa é simplesmente fantástico”.
Então, Fernando, vamos nisto?
— Ó pequenino, sabe, a minha pátria é a língua portuguesa. Não sou muito de putas.
Tê-Éle encolheu os ombros, apesar de manifestamente chocado. O idiota do poeta português não gostava de lupanares! Podia lá ser! Um homem de cultura como ele... onde é que o mundo ia parar?
Ainda por cima em Paris, no dia de abertura do já famoso “Moulin Rouge”. Porque bastou o dia de abertura para o “Moulin Rouge” fazer saber ao Mundo que seria uma instituição para todo o sempre.
Como se não bastasse, Fernando António invadiu ainda a auto-estima de Tê-Éle com um comentário perfeitamente deslocado do clima de festa que se estava a viver:
— A sua pintura mete-me um bocado de impressão.
— É um bocado impressionista, é. Mas isso é secundário. As flausinas, meu amigo, isso é que conta. A vida corrói-me como um verme abjecto. Há que bebê-la até à última gota. Sabe o que é isso, cavalheiro?
— Sei.

Noite de luar. Tê-Éle e Fernando António cruzaram-se com o banda-desenhista jugoslavo Gradimir Smujda, que circulava agarrado à Condessa Latischeff (Rue de La Pépinière,11): “A melhor parte desta inteligente ave de rapina é o seu apartamento, mobilado com o melhor dos luxos e gostos”.
E foi para lá que se dirigiram, apesar da Condessa não ser aconselhável a quem gostasse de carnes frescas e não fosse particular adepto de produtos ressequidos, segundo diz o famoso guia dos prostíbulos parisienses.
— Fernando, deixe-me apresentar-lhe o Gradimir, um excelente homem, que fez um livro sobre mim: “Le bordel des muses”, editora Delcourt, 12 euros e 38, Fnac Chiado, 27/02/2004.
— Prefiro “Toulouse-Lautrec”, editora Taschen, Matthias Arnold, 5 euros e 85, Fnac Chiado, 24/10/2001 — respondeu Fernando, sem se aperceber da sua rispidez, para logo acrescentar:
— É um livro muito mais sério.
Tê-Éle ficou siderado, mas lá conseguiu responder que Gradimir já tinha vários prémios com o álbum “Vincent e Van Gogh”, inclusivamente no festival de BD da Amadora.
Fernando António apercebeu-se do seu erro e quis penitenciar-se de imediato, recitando um extracto do primeiro poema que lhe veio à cabeça, no caso “O mostrengo”, in “Mensagem”: “O mostrengo que está no fim do mar/na noite de breu ergueu-se a voar”.
Foi pior a emenda que o soneto (soneto é uma forma de dizer):
— Isso é uma indirecta para mim, Fernando? O mostrengo sou eu? Sou eu? Não se pode ser anão, rico e gostar de putas e pintura? O mostrengo sou eu, sou? Mas para pagar garrafas de champanhe já não sou mostrengo, pois não? E digo-te uma coisa, ó vate 69, foi a primeira vez este mês que me recusaram uma oferta de meretrizes! Não sei que educação é que te deram em Lisboa, mas eu nasci em berço de oiro e nunca recusei uma mulher na minha vida!
Fernando António ficou aflitíssimo, sentiu um calafrio na espinha, como daquela vez em que a ovelha “Dolly” recusou os avanços de Alberto Caeiro e se ofereceu autenticamente a Roberto Benigni, uma noite, na terra.
— Eu gosto muito de gajas, gosto, sim senhor. Se o Henri quiser, tenho muito gosto em dividir consigo uma meretriz, se pretender conceder-me o privilégio. Peço-lhe desculpa se, de alguma forma, afrontei a sua sensibilidade de artista genial. Não me julgue de maneira muito árdua, por favor. Eu sou um ser especial, como o Henri. Viajo pouco, bebo imenso, tenho uma vida sexual quase inexistente. Estas coisas pagam-se. Tenho o coração ao pé da boca e é frequente acordar com o travo a ventrículos. Desculpe-me, uma vez mais.
Uma lágrima escorreu pelo rosto de Tê-Éle.
Assim como viera a tempestade, assim chegou a bonança.
— Amigo Fernando, eu é que peço desculpa. Se o amigo não quer pôr-se numa flausina esta noite, está no seu perfeitíssimo direito. Podia ter sido eu a recusar um prato de sardinhas numa noite de Santo António, no dia do seu aniversário. Em todo o caso, peço-lhe que continue connosco pela noite dentro.
— Amigo Henri, agora sou eu que insisto. A noite não acaba sem eu molhar o pincel em sua honra. Confio em si. E deixe-me recitar-lhe uma pequena parcela de “Mar português”: “Ó mar salgado, quando do teu sal/São lágrimas de Portugal!/Por te cruzarmos, quantas mães choraram,/Quantos filhos em vão rezaram!/Quantas noivas ficaram por casar/para que fosses nosso, ó mar!”.
— É bonito, sim senhor! Há mar e mar, há ir e voltar. Está a ver? Eu também conheço o poema.
— Bem... isso não é deste poema. É do Alexandre...
— Ah!... pois evidentemente. Como pude confundir um poema macedónio do grande Alexandre com os versos do grande Fernando António?
Fernando António resolveu deixar seguir o diálogo, sob pena do engarrafamento intelectual ofuscar as estrelas de Paris. Para que o cachimbo da paz ficasse definitivamente fumado, Fernando permitiu que Tê-Éle lhe esportulasse a verba para um rendez-vous amoroso com Nesta Needham: “(...) Quando atravessou o canal, há cerca de três ou quatro anos atrás, acabara de atingir a maior idade e tomara a ambiciosa decisão de se transformar na mais brilhante prostituta da Europa. O seu début na arena da prostituição efectuou-se com alguma dificuldade e levou uma vida de boémia, oferecendo a sua estrutura magra a preços reduzidos aos frequentadores arruinados de locais de prazer como Spa, Ostend e Boulogne-sur-Mer (...). Esta senhora aprecia a bebida e bebe o seu amante, um homem de três garrafas, por baixo da mesa (...)”.
Diz a lenda que a experiência sexual de Fernando António não correu muito bem. Sentado num belo fauteil verde-alface, nu da cintura para baixo, Fernando insistia em declamar enquanto Nesta Needham afinava a alça dos seus lábios para uma felação eficiente. Ora, qualquer meretriz de alguma rodagem se deixaria desconcentrar com a declamação de “Ulisses”: “O mito é o nada que é tudo/O mesmo sol que abre os céus/É um mito brilhante e mudo/O corpo morto de Deus/Vivo e desnudo”.

Quando Tê-Éle acabou a função com a sua meretriz, deu com Nesta ainda em plena laboração/sucção com Fernando António.
— Ó Fernando, o amigo permita-me a pergunta: demora muito ou faz serão?
— Henri, não tenho controlo em meu membro. Deverá remeter a pergunta à diligente funcionária...
Henri procedeu em conformidade, enquanto a cabeça de Miss Needham se balançava cadenciadamente ao ritmo de uma nau a tentar vencer Adamastor.
— É desta, Nesta?
Nesta encolheu os ombros e lançou o olhar na direcção de Fernando António, em tom de reprovação. Percebia-se onde queria chegar. O poeta português não estava a colaborar minimamente. Tê-Éle desbravou o terreno:
— O corpo da mulher, um belo corpo de mulher; está a ver, isto não foi feito para o amor... é bonito de mais, não é?
Fernando António ficou perplexo. Nunca lhe tinha ocorrido pensar no assunto dessa forma. E foi no momento em que Miss Needham estava quase a desistir dos seus esforços, desviando o olhar momentaneamente para Tê-Éle, que Fernando António optou por se esvair de neves e açúcares em potentíssimo jacto que serpenteou em overdose pela aparelho esofágico da menina.
Apanhada de surpresa, após 35 minutos de aturado labor (doíam-lhe os joelhos, a garganta estava seca, os maxilares dormentes), não evitou um engasganço super-piramidal, que lhe provocou um ataque de tosse e lhe fez sair uma gota do precioso néctar do poeta pela narina esquerda, enquanto os olhos desatavam a lacrimejar sem dó (bemol).
Nasceu o dia.
Fernando António tinha as olheiras cavadas. Entrara em depressão pós-orgásmica. Os níveis de testosterona baixaram. Os níveis poéticos subiram.
— “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.
— A que propósito é que isso vem agora, Fernando?
— Saiu-me.
— Venha daí ao “bistrot”. Está na hora de um bom “café au lait” e um croissant.
Foram. Um gato preto roçou-se todo nas pernas de Henri de Toulouse-Lautrec-Monfa. Os animais sabem quem gosta deles. Henri sentou-se a uma mesa próxima da porta. Do fundo da sala, Suzanne Valadon sorriu-lhe. Não havia muitas mulheres que fossem ao mesmo tempo modelos e pintoras. Tê-Éle devotava-lhe um carinho muito especial.
Pouco depois, entrava no café um amigo português de Fernando António:
— Meu caro Mário!

Von Grazen, 9/7/2004, 03h55m

Domingo, Dezembro 24, 2006

Mazurka Apassionata

O fumo dos cigarros amarinhava escandalosamente pelas paredes rascas de uma tasca de má fama com o nome vulgar de “Le Polonais Heureux”. Acção: Hamburgo. Zona: docas. Porque sim.
O tempo fosco e irritante convidava ao suicídio por acção directa, mas Álvaro dos Prados estava mais virado para a cerveja alemã. E a verdadeira devassidão etílica e existencial não podia encontrar melhor porto de abrigo do que “Le Polonais Heureux”, assim baptizado em homenagem a um franco-polaco tuberculoso que se parecia um bocado de trombas com Óscar Selvagem, vate céltico arrogante e genial.
Frederik ‘Show-Pain’ (dava-lhe para os “blues” e a música é que levava a toda a força com o granel melódico-depressivo) era um ‘habitué’ do “Le Polonais Heureux” e Frida Pizza-Khalos (a dona da tasca) resolvera mudar o nome do estabelecimento de “Adolfo Mau-Feitio” para “Le Polonais Heureux”.
Quando Álvaro entrou, o bofes-moles do Frederik estava sentado à pianola a tocar a sua mais recente mazurka: “Allez les Blues”, copos 68, alínea c). Fez sinal a Álvaro para que se lhe juntasse. O português abancou sem preconceitos. Com um gesto dos lábios e um trejeito de sobrancelha (só ao alcance dos bêbedos mais dotados) encomendou em morse-mais-ou-menos uma cerveja alemã e um “shot” do bagacinho importado de Campo de Ourique City. Pois evidentemente. O poeta tinha garrafa (trazida da santa terrinha) com poiso certo no “Le Polonais Heureux”.
— Então, man?
Frederik não era de grandes cerimónias com as palavras e Álvaro respondeu-lhe na mesma moeda, que não em marcos alemães.
— ‘Tá-se bem.
A amizade tem destas coisas. É capaz de juntar um polaco que desistiu de Zelazowa Wola (também... um gajo que nasce num sítio destes o melhor que tem a fazer é emigrar) a um português que não gostava de viajar nem à lei da bala, mas que chegou a Hamburgo de paquete, para tratar de uns assuntos a Herr Neuss Ferrari. Uns terrenos nos Cárpatos, uma trama assim meio para o psicadélico-transilvânico.
Cenas.
— Gostas da minha última mazurka?
— Já te disse várias vezes que isso da bazuka não é música a sério. É bonito, mas falta-lhe o sentimento do fado.
Frederik ficou um bocado sentido com a “overdose” de sinceridade de Monsieur dos Prados e embezerrou, depois de sussurrar de forma audível:
— O que percebes tu de música? A tua pátria é a língua portuguesa.
— Fred, a amizade tem destas coisas: é preciso ouvir as verdades de coração aberto.
— Álvarinho, sabes que curto de ti bué, mas a minha cena é mesmo mazurkas. Ando nisto há muito tempo. Em Paris toda a malta adora este “swing”.
— Música é Stan Getz, Ike Quebec. Saxofone a sério.
— Álvarinho, o jazz é devassidão. Olha, para já, um é drogado, o outro é preto.
— Tens de perceber uma coisa. Cada um com os seus paraísos artificiais, desde que não chateie os outros. Além do mais, não podes dizer que não gostas de jazz. Até aposto que farias excelentes duetos com Bill Evans e Kenny Barron.
— Essas gajos mazurkam?
— Não mazurkam nada, foda-se, que já me fizeste falar mal! São pianistas do melhor. Cinco estrelas!
O fumo dos cigarros manhosos e o cheiro a sovaco de puta misturou-se de forma subreptícia na atmosfera delirantemente subversiva do bar. Álvaro dos Prados desconhecia que desconhecia toda a essência de uma boa mazurkada.
Com jeitinho, à medida que os “shots” de bagaço iam amaciando o bucho do lusitano, Frederik ia convertendo o amigo à causa das mazurkas. Na pior das hipóteses, deixava-o na dúvida.
— É como te digo, Álvarinho, quem nunca mazurkou não pode atirar a primeira pedra.
Valha a verdade que Frederik tinha o dom da palavra. Percorreu o passado com inaudita titilância e, em pezinhos de mocassin, foi convencendo Álvaro da relevância histórico-musical da sua causa.
— Isto já vem do século XVI. Agora é uma dança polaca, mas está intimamente ligada com o oberek, a polska e o kujawiak.
— Do Kujawiak lembro-me bem. Foi mais um bom avançado que o Sporting queimou.
A conversa estava no seu Evereste intelectual quando, ziguezagueando por entre os moinantes teutónicos, se chegou à boca de cena o grande Jorge Sandes, amigo íntimo de Frederik.
Se Álvaro já estava quase convencido das virtudes éticas da mazurka, a chegada de Jorge Sandes acabou por se revelar decisiva, porque o raio do homem era um nadinha persuasivo no que tocava a masturbar os méritos mazurkenses:
— Álvarinho, sabes que eu até tenho umas zangas valentes com o Fred, mas quando ele tem razão sou o primeiro a dar o baço a torcer. A mazurka foi a melhor coisinha que se inventou até agora, no que diz respeito a música. A mazurka é a rainha das danças sociais, quando bem executada. E aqui o Fred toca que é um disparate. A Maria Nicolaevna, filha do Nicolau, criou a Polka Mazur, que é um disparate de qualidade. Estupidamente divina, ainda melhor que uma Carlsberg estupidamente gelada, num fim de tarde na Fonte da Telha.
— Não sei quem é a Maria Nicolaevna. Já há muito tempo que não vou às putas. E a única que conheço com jeito para tocar, aqui nas docas, é a Heidi, que toca clarinete e é só quando está bêbeda.
— Álvarinho, acorda, por favor. A Maria Nicolaevna é a filha do Nicolau I da Rússia e criou a Polka Mazur em 1830!
— Sabia lá eu!
Frederik e Jorge Sandes resolveram deixar a conversa por ali e foram-se embora, deixando Álvaro embrenhado nos seus embebidos bagaçais. Mal saíram, Frida Pizza-Khalos olhou de soslaio para Álvaro dos Prados e dos lábios saiu-lhe um “psst” mais sibilante que uma naja desempregada a caminho de um trilho no meio de ervas altas.
— Herr Dos Prados, o senhor é que sabe da sua vida, mas eu se fosse a si tinha muito cuidado. O Herr Sandes gosta de se vestir de mulher quando está sozinho com o Frederik. Gosto muito de o ver a tocar na bazuka, mas é um sujeito estranho. O meu dever é avisá-lo!
— Ah! que frescura na face de não cumprir um dever! Agradeço todo o seu cuidado, Dona Frida, mas sei as linhas com que me coso. E também sei as outras linhas férreas todas. Tive uma boa instrução, D. Frida. Hoje a miudagem não sabe nada. É o dia todo enfiada no buraco do Osório, aquele “bunker” infecto cheio de mesas de matraquilhos, cavalinhos e dominó. No meu tempo, se queríamos divertir-nos, víamos as moscas ao microscópio, tínhamos caixinhas cheias de calhaus, tipo feldspato, mica, hulha, coisas assim, D. Frida. Então e as suas pinturas?
— Ah! tem estado tudo em meias tintas, Herr Dos Prados. Não é só a inspiração. Sabe, isto de ter uma tasca em zona de putas dá muito trabalho. Quem me dera poder dedicar-me à pintura a tempo inteiro.
— Se um dia fôr a Lisboa, pergunte por mim na Brazileira. Tenho uma amiga minha que a pode ajudar a mostrar os seus trabalhos.
— Ai sim? E ela pinta bem?
— Olá se pinta! Na zona do Rego ninguém pinta melhor do que a Paula. Abusa um bocado dos castanhos e das gajas com cara de enjoadas, mas tem uma pintura que sai muito bem no Natal e na Páscoa.
Álvaro mandou pôr a despesa na conta e saiu.
Para variar, estava um frio do caraças e chovia. “Hamburgo era uma cidade que não se comia nem com mostarda ou molho de tomate!”, pensou Fernando António Nogueira Pessoa, um heterónimo que Álvaro tinha criado para os climas mais agrestes.
O Fred e o Sandes já deviam estar aconchegados num salão qualquer a discutir as últimas teorias filosóficas. Que ficassem com as paranóias deles. Álvaro pôs-se a caminhar ao sabor das mamas e das mini-saias, do cheiro convulso das ratas mal lavadas. Não lhe apetecia cobrir. Não lhe apetecia descobrir-se (continuava a chover). Nem se conseguia descobrir.
Havia dias em que acordava na cama com o Ricardo Reis. Havia noites em que não lhe saía da cabeça o Bernardo Soares. O pior era quando lhe invadia a intimidade um novo heterónimo, o Soares dos Reis, uma perniciosa mistura dos dois, que não descansou enquanto não arranjou um ‘tacho’ num museu do Porto.
Álvaro nunca conseguiu vender-se aos simples interesses materiais.
“Não, não quero nada, já disse que não quero nada”. Sempre disse isto. E nunca quis nada para si. Nem para si, nem para a Daisy, a sua miúda. A Ofélia recusou-se a fazer-lhe certas coisas e ele pô-la com dono.
“Está bem que o Soares dos Reis é um heterónimo com os seus méritos. Isso ninguém lhe retira. Foi ele que levou para o museu de Vila Velha de Rodin a famosa estátua do ‘Pensador’. Ao fim da primeira semana os putos já a tinham enchido de grafitti, mas a culpa foi da falta de vigilância. Portugal é Portugal, não é? Não dá para deixar originais nas exposições, assim em auto-gestão, sem ninguém a vigiar”.
Era um bom homem, Álvaro dos Prados. Com os seus defeitos, como toda a gente. Nem todos podem ter a arte de conjugar uma mazurka de trás para a frente.
Hamburgo tinha aparecido à má-fila na sua vida, enquanto o sócio de Herr Neuss Ferrari, Doktor Wolf Bat, não se decidia a dar andamento ao negócio do castelo. Mas a firma londrina tinha mandado Jonathan Parker com os documentos e o jovem perdeu-se de amores por uma miúda pálida, abriu uma fábrica de canetas e nunca mais se soube dele pelos lados da Roménia.
Coisas que um homem não pode prever.
Álvaro levantou a gola puída do casaco, abanou as abas do chapéu para sacudir a chuva, afiambrou meia-dúzia de passos mais decididos e desligou-se da realidade com a suavidade dos sonhadores.
Ele sabia que a eternidade lhe pagaria o devido tributo.
Com ou sem mazurkas.
Era o que mais faltava.

Domingo, Dezembro 17, 2006

Allez, UCP!

Não se trata de reviver o clima das Unidades Colectivas de Produção ou da Reforma Agrária. Não se trata de andar empoleirado em camiões de caixa aberta, a gritar pelas ruas.
Os tempos são outros.
Os tempos que vivemos são os da União Ciclística Poética (UCP), agremiação velocipédica que nasceu muito por força da filantrópica teimosia de um homem. Não um vulgar ser humano, mas um cavalheiro da mais fina estirpe: Bernardo Soares.
“Nós nunca nos realizamos. Somos dois abismos. Um poço fitando o céu”, afirmou o ajudante de guarda-livros na cerimónia ocorrida na Federação Portuguesa de Ciclismo, Ciclo-Turismo, BTT, Passeios de Bicicleta e Actividades Similares (F.P.C.C-T.B.T.T.P.B.A.S).
“Mas apesar de nunca nos realizarmos, há momentos da nossa vida em que as coisas valem a pena”, continuou. Alguém segredou rapidamente que tudo vale a pena se a alma não é pequena. Bernardo Soares nem se apercebeu do facto e prosseguiu o seu discurso de investidura:
“Se alguém é digno dos maiores encómios, esse alguém é o secretário-geral da UCP, o senhor Ricardo Zénite, uma pessoa a quem todos os sócios-fundadores devem muito. Ele abdicou de inúmeras horas de lazer para nos ajudar a construir este sonho chamado União Ciclística Poética. Foi também através dos seus bons ofícios que conseguimos um wild-card para participar no Tour. Escusado será dizer que de outra forma nem seríamos recebidos pela organização da Volta à França. Não é qualquer equipa que faz a sua estreia competitiva em pleno Tour. De resto, vamos mesmo entrar para o Guiness como a primeira equipa do mundo a estrear-se fora do seu país. É óbvio que não podemos esperar muito da nossa primeira participação. Um lugar a meio da tabela, colectivamente, será uma boa classificação. Individualmente, ficarei satisfeito se metermos um poeta nos dez primeiros. Mais do que isto será pura utopia. Não escondo, contudo, o sonho de poder andar de “maillot jaune” um dia ou dois. Seria extremamente importante para o nosso principal patrocinador, a Sociedade Portuguesa de Estivadores. Gostaria de agradecer muito particularmente ao seu actual presidente, senhor Luiz Rabisco Rebelde”.
Bernardo Soares referiu-se ainda às possibilidades da equipa no que respeitava às outras camisolas. A camisola verde, dos Pontos, teria em Mário de Sá-Carneiro um forte candidato, ele que era um verdadeiro sprinter da poesia. Para a montanha, havia que contar com Teixeira de Pascoaes, habituado às serranias de Amarante.
Por especial deferência da organização, a equipa UCP foi autorizada a correr com mais elementos do que os das outras formações. Para além disso, os números dos ciclistas da UCP eram perfeitamente aleatórios. Ou melhor, tinham sido escolhidos por um representante do Governo Civil e por Fernando António, num acordo que misturava legalidade e cabalística.
Dessa forma, Bernardo Soares alinhou com o 69. Porque era “muito bom a fazer piões em derrapagem controlada”. Teixeira de Pascoaes foi para a estrada com o 666, porque gostava muito que lhe chamassem o “Demónio das Montanhas”. Mário de Sá-Carneiro ficou com o 22, porque a sua poesia tinha a elegância de dois cisnes a nadar no lago das palavras. Luiz Vaz de Camões contentou-se com o 1111, porque gostava de todos os conjuntos em que José Cid tinha participado. Bocage fez uma enorme birra quando lhe atribuíram o 1313. Queria alinhar com o 69.
“Não pode ser, Manuel Maria. Repare que é muito importante que seja o chefe-de-fila Bernardo Soares a alinhar com um número iniciático como o 69. Se Deus quiser, este será o primeiro de muitos Tour. Não faltarão ocasiões para alinhar com o 69”, disse Ricardo Zénite, um elemento sobremaneira apaziguador. Uma voz amiga a qualquer hora do dia ou da noite.
Um fax para a organização da Volta à França permitiu esclarecer a situação. Na volta da telecópia apareceu uma autorização para que Manuel Maria alinhasse, a título de excepção, com o número 69-B.
Havia ainda Alexandre O’Neill (777), Jorge de Sousa Braga (888), Manuel António Pina (7-B, por causa do número de vidas dos gatos, animais que muito estimava), Pedro Mexia (1999, não por causa da série televisiva, mas por ser a data de edição do seu livro “ O duplo de Tibério”), Armando Silva Carvalho (1001) e Cesário Verde (10-A, em homenagem à famosa porta do estádio do Sporting, o seu clube de sempre).


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No dia 14 de Julho de 2006, à partida para a 8ª etapa do Tour, o panorama desportivo da UCP era tão desolador que os corredores da Volta à França tinham decidido, em plenário, conceder uma hora de avanço à equipa portuguesa. Até porque a etapa terminaria no mítico Alpe D’Huez, onde Joaquim Agostinho fez levantar bem alto o orgulho lusitano, no final da década de 70.
— A geração de 70 é que era boa. O Jaquim, o Nando Mendes, o Zé Martins. Agora... pff, ó Portugal, se fosses só três sílabas de plástico, que era mais barato — disse Alexandre O’Neill, que andava às voltinhas com a bicicleta, de um lado para o outro; e tinha trocado o bife com esparguete das 7 da manhã por um queijinho fresco e um pires de doces regionais.
— Tens razão, Alexandre — rematou Bocage.
— Ó Manuel Maria, não lhe dê força. Vamos partir para uma das etapas mais difíceis e o cavalheiro entra na onda dos derrotismos. Não podemos partir para a tirada com este espírito — alertou Bernardo Soares, o mais bem classificado da UCP, nessa altura. Ocupava o 183º posto, a 4 horas, 23 minutos e 7 segundos do “maillot jaune”, Teddy Zerckx. E tinha tomado atalhos em três etapas, sem ninguém ver.
— Olhem, para já, não vou de capacete — avisou Bocage, que considerava os capacetes como “preservativos cranianos sem qualquer utilidade”.
— Ai que castigo, Manuel Maria, todas as manhãs a mesma coisa — irritou-se Bernardo Soares, que andava permanentemente num desassossego, por causa das coisas da equipa. Dizia-se à boca pequena que ele andava a escrever um diário sobre a participação da equipa portuguesa no Tour: “O livro do desassossego”, com prefácio de Lanche Armstrong.
— Ó Manel Maria, desculpe-me que lhe diga, mas o cavalheiro não é mais que os outros. Lá por ter conquistado três “pontos quentes” em que ofereciam jambons e pâtisseries não é motivo para se sentir um ciclista à parte — insistiu Bernardo.
— Ó chefe, você pode até perceber umas coisas de ciclismo, mas de pontos quentes percebo eu. E conquistei muito mais do que três pontos quentes, no decurso da minha vida. Além disso, se a etapa é sempre a subir, para que é o capacete?
— Por amor de Deus, Manuel Maria, é a subir e a descer, a subir e a descer. Só no fim é que é a subir, a subir, a subir. E depois acaba.
Bernardo Soares não o confessava, mas receava particularmente a etapa desse dia. Pela primeira vez a equipa ia partir toda junta, sem mais nenhum ciclista ao lado, o que era assustador. Se já se distraíam imenso no meio do pelotão, sozinhos havia de ser o bom e o bonito.
Já todos tinham assinado o “ponto”, Jorge de Sousa Braga aproveitara para se “fazer ao piso” de uma das meninas do pódio, que ia a passar na zona. Escreveu por baixo da sua assinatura: “Ao menos os teus olhos permanecem verdes todo o ano”. E depois mostrou-lhe a frase e traduziu para francês, com sotaque do Porto. O que se podia esperar de um poeta que já fizera sair pombos pela braguilha, numa sessão de declamação?
Com grande dificuldade, Bernardo Soares lá conseguiu levar a equipa para a linha de meta à hora certa. Quer dizer, uma hora antes da partida do resto do pelotão. A assistência até pensava que aqueles ciclistas com camisola roxa, rosa e verde-alface e calções amarelo-canário (escolha de Armando Silva Carvalho na brincadeira, mas os outros tinham achado ‘very cool’) ainda faziam parte da caravana publicitária ou andavam a distribuir brindes.
Ao tiro de partida, lá se volatilizaram em boa velocidade, numa manifestação pura de ostentação. Mal deixaram de ter espectadores no percurso reduziram a marcha. Pedro Mexia, que era o “benjamim” da equipa, ainda se atreveu a perguntar:
— Mas não temos hipótese de fazer umas flores nesta etapa? Afinal, partimos com uma hora de avanço...
Seguiu-se um coro de gargalhadas. Cesário Verde riu-se tanto que chocou contra Mário de Sá-Carneiro e caíram os dois.
— Ó Pedro, deixe-me que o esclareça: a montanha tem dois lados. Nós vamos passar pelo lado que sobe. Se não fossem as repescagens diárias por mérito cultural já nem havia equipa — adiantou Manuel António Pina, que tinha de resistir continuamente ao impulso de encostar a bicicleta e ficar a fazer festas ao gatos que mansamente se espreguiçavam na prazenteira “campagne” dos irredutíveis gauleses.
— Vamos chegar lá acima todos mortos, se é que chegamos — disse, quase estoirado de riso, Cesário Verde, que já tinha montado na bicicleta outra vez e piscava o olho a Mário de Sá-Carneiro, a quem os colegas tinham alcunhado de “Quasi”. Quasi tinha vencido a meta volante, quasi não tinha caído, quasi ficava nos primeiros da geral. Mário desculpava-se com o tempo algo chuvoso em certas etapas: “Um pouco mais de sol eu era brasa, um pouco mais de azul eu era além”.
— Olhem, por acaso o Tom Simpson morreu a subir o Mont Ventoux. Se algum de nós cair para o lado em plena subida eu dou-lhe a extrema-unção — disse Pina, que não perdeu balanço e declamou: “Morrer não é motivo de orgulho/mas estavas cansado de mais para te justificares/Ainda por cima no mês de Julho/ com as férias marcadas, ausentes os familiares”.
— Eu acho que não vamos cair. Pelo menos na classificação é impossível cair mais — lançou Bocage.
— Boa, Manel Maria! Escreve já essa, para não te esqueceres. Podes meter no teu livro de anedotas que vai sair no Natal — sugeriu Jorge de Sousa Braga.
Bernardo Soares teve de se impor. Ainda só estavam a pedalar há dez minutos e já queriam parar para escrever coisas.
— Ninguém pára para escrever nada. Nem que tenha na cabeça o poema mais bonito do mundo. Isto agora é o Tour de France e estamos aqui para defender o bom nome de Portugal e dos nossos patrocinadores. Há um mínimo!
Vendo o facies irado de Bernardo Soares, os ciclistas da UCP lá perceberam que era conveniente meter umas férias repartidas na galhofa habitual, não fosse dar uma coisa ao Bernardo. Afinal, o homem até se tinha esforçado. Quase todos os poetas andavam no ciclismo pelo convívio, queriam era literatura, copos e gajas. Curtir umas paisagens, fugir da família, conquistar a imortalidade do Olimpo a desbravar quilómetros.
O Bernardo não era assim. Metiam-se-lhe umas coisas na cabeça e depois era o Diabo para lhe saírem da caixa dos pirolitos. Por vezes, temiam pela sua sanidade mental. Porque o Bernardo dizia coisas do estilo: “Tenho sensações estranhas, todas elas frias. Ora me parece que a paisagem essencial é bruma, e que as casas são a bruma que a vela. Uma espécie de anteneurose do que serei quando já não for gela-me corpo e alma. Uma como que lembrança da minha morte futura arrepia-me de dentro. Numa névoa de intuição, sinto-me, matéria morta, caído na chuva, gemido pelo vento. E o frio do que não sentirei morde o coração actual”.
É caso para uma pessoa se preocupar. Está bem que o Tour é uma prova muito dura, mas a malta lá acaba por chegar à meta. E depois há massagens, jacuzzi, os DVD nos quartos do hotel, umas ostras com champanhe, mordomias que os outros ciclistas não têm. Mas o Bernardo possuía uma zona muito negra dentro da cabeça dele.
“Quando julgamos que vivemos, estamos mortos. Vamos viver quando estamos moribundos”.
Estão a ver? Não eram coisas de que ele falasse durante as etapas, mas havia um aspecto perturbador no Bernardo. O Bocage também tinha umas telhas assim, mas em diferente:
“Meia-noite seria; eu passeando/No meu palmar chorava o meu destino/eis que ao som de um gemido repentino/Olho, e vejo uma sombra no ar girando”. E depois põe-se a perguntar “Quem és tu, Guirá? Quem és, ó Lémure malino?”. O Manuel Maria é danado para a borga, mas também tem um lado negro, como o Bernardo. E faz sempre uns poemas com uns nomes de gajas que... se faz favor! Não lembram nem ao Menino Jesus: Gertrúria, Elmira, Marília, Dido, Jónia, Ursulina, Nise.

Apesar do Bernardo ser o mais bem classificado da UCP no Tour, o Mário era incontestavelmente o melhor sprinter e rolador. Também era mais novo.
Por isso, ganhou logo a primeira meta volante, com 20 km de etapa corridos. E chegou lá com mais de um minuto de avanço em relação ao resto da malta, só pelo gozo.
Quando o pessoal passou, em pelotão, velocidade mais do que moderada, estava ele apeado, a “bater um couro” a uma miúda chamada Salomé: “Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua, alastra-se pra mim num espasmo de segredo...”.
O Pedro Mexia não foi de modas e atirou-lhe: “Ó Mário, olha que pode chegar o pai dela de um momento para o outro. Além disso, a miúda tem bigode. Vai-se a ver é uma portuguesa nascida em França”.
— Não és tu que dizes “a mais delicada colecção: os seres amados”? Então vai chatear um Pinguim de Magalhães!
Perto das duas horas de prova, um primeiro quarteto de favoritos alcançou o pelotão compacto da UCP. Eram eles os belgas Teddy Zerckx e Lucien Van Ímpeto, e os espanhóis Luís Ócalhas e Miguel InDurex.
— Ça va, les UCP? — sorriu Teddy Zerckx, que tinha a alcunha de “Canibal” por devorar os prémios todos e não deixar nada para ninguém.
— Ça va e não voltes. A gente vê-se na chegada. Porque é que demoraste tanto a apanhar-nos? Hoje não estás em forma, pois não? — provocou O’Neill.
Bernardo Soares repreendeu-o. Não houve tampo para mais. Aproximava-se uma descida vertiginosa, quando nada o fazia prever, depois de uma pequena elevação.
Cesário Verde era o melhor descedor do grupo português e conseguiu ganhar perto de dois minutos. Parou ao pé de um “bistrot”, mandou vir um Campari e pôs-se a recitar um dos seus poemas a um trio de reformados que estava a jogar à petanca no quintal:
“No campo; eu acho nele a musa que me anima: /a claridade, a robustez, a acção. Esta manhã, saí com minha prima/ Em quem eu noto a mais sincera estima/E a mais completa e séria educação”.
Vazou o Campari goelas abaixo e montou na bicicleta, agarrando de raspão a passagem, agora veloz, por via da descida, dos seus camaradas de equipa.
— Ó Cesário, o senhor bebeu alguma coisa no “bistrot”, quase de certeza... o que bebeu?
— Bernardo, acalme-se. Está com medo que eu ganhe a etapa e tenha de ir ao controlo?
E depois, la campagne c’est la campagne. Independentemente das montanhas a subir. O ar puro, a Natureza em todo o seu esplendor. É sempre um prazer.
Não é nada um prazer. Ainda agora começou a subida final e já estamos todos quebrados. Já não há ninguém atrás dos ciclistas da UCP. A nossa relação pessoal com os condutores do carro-vassoura é tão intensa que o Pedro Mexia até convidou um deles para padrinho de casamento, regado a Licor Beirão, na Lousã. O moço assolapou-se de paixões pela Chasey Lane (uma actriz de filmes de acção de série B) e diz que vai ser em Setembro, se ela não fugir com outro, até lá.
“Não podes tocar na porta verde/sem que fiques com as mãos verdes./Pouco te interessam o segredo das portas/e as adivinhações verdes,/mas a tinta fresca do mundo/faz-se em breve da cor da tua pele”.
Este poema do Pedro chama-se “Não tocar”, mas esteve para se chamar “Behind the green door”. Foi inicialmente dedicado a Marilyn Chambers, uma sua amiga dos tempos de liceu. Depois acabou por o enviar, num postal banal dos correios, para a Chasey, que se deixou cativar pelo espírito romântico do poeta. Depois do casal Lanche Armstrong/Cherry Crawl, Pedro Mexia/Chasey Lane eram a dupla mais perseguida pelos fotógrafos do Tour.
O primeiro elemento da UCP a chegar a L’Alpe D’Huez foi Teixeira de Pascoaes, com cinco minutos de atraso em relação ao último ciclista não-UCP.
Mirou e remirou a paisagem, deu alguns autógrafos e proferiu, em voz alta e decisiva:
— Isto aqui é um bocado parecido com o Marão.
Apareceu-lhe pelas costas (sem consequências) um jornalista da France 2. E disparou:
— Então, gosta do Tour?
E o “Demónio das Montanhas”, já abraçado pelo verdadeiro Diabo, o adepto suíço que não falha um Tour, respondeu, de rosto grave e honesto: “Eu amo a serra e o mar/Amo o bruto penedo, a branca nuvem,/As ondas, em seu líquido ansiar/Ou térrea densidade do seu êxtase...”.
— Je comprends. Mais... alors e o Tour?
— “Diante de mim, ressurge e se ilumina/ O sol turbado, escuro e sonolento./Onde ponho os meus pés,floresce a terra/brilha a luz,onde ponho o pensamento”.
O repórter francês encolheu os ombros e deixou Teixeira de Pascoaes a contemplar a Natureza. Os portugueses eram seres estranhos. Talvez não fosse grande ideia deixarem-nos participar no Tour de qualquer maneira, atravancando de pitorescos uma prova digna e respeitada em todo o mundo.

Pouco depois (volvidos 21 minutos e 15 segundos) chegou Luiz Vaz. Sem qualquer espírito trocista, Teixeira deu uma lata de Coca-cola a Camões e comentou:
— Pensei que chegasses um pouco antes.
Camões, exausto das últimas rampas, humilhado pelos aplausos que não paravam enquanto ele trepava aos ésses (piedade, nada mais que piedade, suprema humilhação, que tinham aqueles aplausos misericordiosos a ver com a admiração?), não compreendeu a crítica construtiva de Pascoaes e disparou, com maus modos, recusando a Coca-Cola:
“O esquivo desamor com que me tratas/converte em piedade, se não queres/Que cresça o meu querer e o teu desgosto”.
Hora e meia depois, chegaram os últimos ciclistas da UCP, nitidamente mais folgados.Bocage, O’Neill e Cesário Verde não pareciam nada cansados.
— Metemos o nosso passo. Amanhã há mais — disse O’Neill.
Finalmente, podia-se proceder à entrega do último prémio do dia. O troféu da combatividade. Vencedor: Bocage. Tinha andado à porrada com três ciclistas, dois homens que montavam as barreiras na meta, dois gajos da caravana publicitária que eram casados com mulheres boas e um empregado de café desempregado que tinha deixado escapar um comentário ao penteado do poeta.
Na tenda da equipa belga, Teddy Zerckx fazia jus à alcunha de “Canibal” e deglutia descansadamente um peito de uma das meninas do pódio, junto do seu amigo Peter Greenaway.
— Ó Teddy, eles não vão dar pela falta da miúda, no pódio de amanhã? — inquiriu o cineasta.
— Qual quê!?! Pensam que ela está com o poeta português.
— Qual deles?
— O mais ordinário de todos, nom de Dieu!
O mais ordinário de todos, nom de Dieu, era, obviamente, Bocage. Que tinha levado consigo outra menina do pódio, a que lhe dera os beijinhos da praxe na altura da entrega do prémio da combatividade.
— Venha daí dar uma volta comigo. Já estou farto desta Volta à França. Prefiro dar-lhe a volta:
“Não sou vil delator, vil assassino,/Ímpio, cruel, sacrílego, blasfemo;/Um Deus adoro, a eternidade temo,/Conheço que há vontade, e não destino/(...) Mas folgo e canto/ e durmo nos teus braços”.
A menina do pódio suspirou e bateu as pestanas na direcção do olhar de gavião do vate ordinarão, do génio mais obsceno a Oeste de Pecos. O casal espontâneo refugiou-se atrás de um camião das equipas a sério e Bocage fez o que tinha a fazer, sem remorsos ou preconceitos.
Só então, concluído o trabalhinho, reparou em Jorge de Sousa Braga, parado, mais imóvel do que um rochedo sonolento, a olhar em frente.
— O que é isso, ó Jorge? Adormeceste?
— Nem por isso. “Sempre me intrigaram esses lagos de montanha alcandorados nas nuvens. É como se fossem gigantescas taças de orvalho que as montanhas erguessem para brindar a cada novo dia”.
Bernardo Soares andava verdadeiramente desesperado, a tentar juntar a equipa. Era importante sob todos os pontos de vista. Havia necessidade de fazer fotos para recordação, para futuro currículo, para ilustrar uma reportagem de fundo para o “L’Équipe”, que mais tarde seria publicada sob o título: “UCP, a equipa portuguesa que não sabe pedalar”.
Quanto mais se esforçava, mais parecia que os ciclistas se dispersavam, como aviões de uma esquadrilha acrobática: juntavam-se, afastavam-se, faziam cabriolas e desapareciam nos céus.
Agora tinha desaparecido o Cesário Verde, a contas com uma serenata improvisada a uma moçoila de Paris que tirava férias em Julho para vender tremoços no Tour:
“Milady, é perigoso contemplá-la/Quando passa aromática e normal/Com seu tipo tão nobre e tão de sala/Com seus gestos de neve e de metal”.
— Ó Monsieur, ou me compra os tremoços ou desampara a loja!
“Bah! Está verde”, pensou Cesário.
Correu. Toda a gente à sua espera. A UCP formada, sorrisos ao alto, no alto dos Alpes. O fotógrafo do “L’Équipe” a disparar incessantemente. E o Bernardo para o redactor:
“Quando é que sai? É na revista dos fins-de-semana? Depois avisem. Ou mandem uma para Lisboa. É que se paga mais pelo jornal, mas a revista não chega. Porquê? Já desisti de perceber. Até parece que Paris é muito longe de Lisboa. Vejam lá se dizem bem da malta. A equipa está agora a começar. Somos amadores, mas gostamos muito de ciclismo. A literatura é uma paixão, mas o ciclismo já faz parte integrante das nossas vidas. Quer dizer, as nossas vidas têm agora duas dimensões”.

...a luxúria japonesa de ter evidentemente duas dimensões apenas...
(“Livro do dessassossego” da 4ª edição da Assírio e Alvim, algures entre as 534 páginas)

A luxúria das montanhas mágicas, com os heróis a subir a direito, que o Olimpo é sempre em frente. Os heróis dos músculos retesados e corações generosos. Os heróis que são tão heróis como os heróis da pluma, que me enchem o coração de musculações afectivas.


Foi você que pediu um Bernardo Soares?

Von Grazen, 18/7/2004 05h15m

Apoio: “Make your own fun” (Gary Foster) e “Young lions and old tigers” (David Brubeck). Duas passagens cada.

Domingo, Dezembro 10, 2006

Essa coisa das pinturas abstractas

Paul andava a passear na praia. Dominique, uma ave particularmente dócil, seguia Paul a curta distância, tentando meter conversa. O problema era só este: apesar da hora matinal, Paul já tinha um grãozinho na asa e não estava com paciência para dar trela a Dominique. Não obstante a “cadela” que lhe enfeitava o fígado de ressacas e o cérebro de dúvidas existenciais, ainda conseguia prestar atenção a alguns pormenores do planeta.
Quando Dominique o ultrapassou e se pôs a dar saltinhos à volta de uma garrafa de absinto, Paul parou. Olhou para a garrafa, curioso. Primeiro, passou-lhe a mão por cima, ao de leve, tirando a areia maior. Depois esfregou com vigor e pressentiu que algo estava a acontecer.
A rolha saltou com a energia do foguetão de Meliès. Um sujeitinho pequeno, tipo gnomo, amarrotado, amesendou-se na areia molhada, levou com o último grito da nova vaga de espumas e começou a insuflar-se de vida. Como se tivesse podido abandonar as cavernas do Inferno para se transformar num diplomata de olhos verdes e doutoramento em Harvard.
— Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal?
— Ça alors...
— Os meus respeitos, cavalheiro. Saberá por acaso informar-me qual a graça deste pedaço de areia assaz atraente?
— Pardon?
— Como é que se chama esta merda, pá? Falo chinês, caraças?!? Catano p’rò franciú!
— Isto são as Marquesas.
Fernando olhou em volta e não viu marquesas absolutamente nenhumas.Pensou que o indígena de mau aspecto tinha apanhado sol a mais. De resto, o hálito não era nada de famoso. Optou por um tratamento circunstancial e suave. Afinal de contas, estava a jogar fora e nunca se sabia onde podia ir parar se tivesse de voltar para dentro da garrafa.
— Não é para te contrariar, mas onde é que está a nobreza toda?
— Qual nobreza?
— As marquesas...
— Isto são as Ilhas Marquesas. Fatu-Iwa.
Foi nessa altura que Fernando percebeu tudo. O caso era extremamente grave. O melhor era seguir com a corrente.
— Obrigado. Para ti também.
Como estava a ficar com fome, não perdeu mais tempo e perguntou:
— Não há por aqui um McDonald’s ou Pizza Hut?

Decididamente, o estranho homenzinho de chapéu preto e óculos redondos era um caso mental muito particular. Paul optou por fazer de conta que o Universo era perfeitamente equilibrado. Resolveu regressar para junto das suas telas. Fernando pôs-se a segui-lo, olhando analiticamente para Dominique.
— Olha lá, a passarinha é tua ou é vadia?
Dominique não tardou em bater asas e afastar-se, desconfiada com o olhar do poeta que tinha a capacidade de fugir de dentro das garrafas e fazer viagens sem sair do mesmo sítio. Dominique andava a ler Robert Bréchon.
Fernando pensou que era pena. O passarito tinha um ar tenrinho. Instintivamente, meteu a mão ao bolso. Fósforos, viste-los tu? Nunca havia nada! Nem sequer o canivete suíço que tinha tirado da arca dos heterónimos.
O sol começava a incomodar Fernando. Tirou o lenço do bolso e improvisou uma singela cobertura para a cabeça, com quatro pequenos nós nas pontas. Usou o chapéu para se abanar sem mais tardanças.
— Isto aqui faz um sol do caraças. É sempre assim cá nas Marquesas?
— Mais ou menos. É bom para pintar. É tudo uma questão de luz e momento.
Dominique sobrevoou Fernando uma primeira vez, a tirar os azimutes. Foi buscar um coco pequeno e deixou cair sobre a cabeça do poeta, que se desviou uma fracção de segundo antes do marisco desabar sobre uma pedra pontiaguda.
— Eh! pá, isto é que foi sorte. Só falta a palhinha.
Já com o estômago mais reconfortadinho com o sumo de coco, Fernando chegou bem disposto à zona onde Paul tinha deixado as suas telas, com vista para o mar e de costas para as palmeiras.
— Bolas, que as gajas daqui são bué de feias.Não deves ter pilim para modelos de jeito, está visto...
— O cavalheiro não percebe nada de pintura...
— Isto é alguma coisa?!? Diz lá, sinceramente. Pensas que eu sou algum otário? Apanhaste sol, pronto. Confessa. Cada um tem os seus azares. Se calhar és bom sapateiro, ou correeiro. Cada um é para o que nasce. Já experimentaste o artesanato?
— Qual é o problema da pintura ?
Fernando pensou que havia saias no assunto e resolveu moderar-se. Não se deve brincar com o coração de um homem, mesmo que seja um louco, desterrado numa ilha sem nada.
— Alguma destas é a tua namorada ?
— É a da esquerda. Chama-se Pahura.

Pronto. O homem era mesmo louco. E a namorada devia ter família em Itália. Mesmo assim não lembra ao Menino Jesus baptizar alguém com o nome de “Medo”. Como te chamas? Maria do Mar. E tu? Maria do Medo.
— Então e a da direita?
— É uma miúda que costuma ir até ao templo de Borobodur.
Olha que pena, pensou Fernando. Se não tivesse falhado o autocarro das onze e meia ainda podia ter ido visitar o templo de Borobodur.
— Costumas receber os guaches pelo correio, não?
— Meu caro senhor, veja como fala. Isto é “oil on canvas”.
— É aqui perto?
Paul encolheu os ombros. O mundo ainda havia de adorar a arte de Gauguin. Mas era duro ser artista. O maluco do Vicente Vemgrogue talbém lhe tinha dado cabo da cabeça com os girassóis, apesar de ser um talento emergente.
Quando Paul deu por ele, Fernando tinha virado uma tela ao contrário.
— Não gostas mais assim ?
— Meu caro senhor, deixe a tela como está. Essa tela é para ser vista da direita para a esquerda. Chama-se “Where do we come from? What are we ? Where are we going?”.
— Não vais escrever o título na tela, pois não? É que podes ficar sem tintas... olha lá, explica lá o que é esta confusão toda de pessoal...
— Isto não se explica. O que interessa é capturar o mundo interior da fantasia e do sonho. Os impressionistas olham só para o que está ao alcance da vista. Não se preocupam com os misteriosos centros do pensamento.
— Então tu não és impressionista?
— Claro que não. Eu sou um pós-impressionista. Aposto no valor do símbolo.
— Pronto, está bem. Todos têm direito. Mas olha que estas cores me continuam a fazer muita impressão.
— São as cores do Tahiti.
— Ai são? Mas o meu gel de banho não é dessas cores. Deve ser do monói...
— O cavalheiro é mesmo ignorante.
— Ignorante és tu. Conheces Almada Negreiros? Quem te dera a ti chegar-me aos calcanhares. Eu vou ficar na história da Literatura lisboeta. E tu? Quando muito és o melhor pintor desta rua. Olha, nem isso, que esta porcaria de terra nem sequer tem ruas.
— Meu caro senhor, eu vivi no Brasil, vivi na Bretanha e escolhi morrer no Tahiti. Eu traço o meu destino.
— Olha, eu vivi em muito mais sítios. E nem sabes a sorte que tens. Eu vejo-me aflito para sair da garrafa quando está bom tempo. As mais das vezes a malta só esfrega na garrafa em pleno Inverno.

Era verdade. A alma de Fernando Ortónimo estava cheia de fel. Uma dívida de jogo a um génio da lâmpada obrigara-o a entregar-se aos limites exíguos de uma garrafa, onde nem sequer havia espaço para um ratinho da Índia, quanto mais para um heterónimo.
E se Fernando Ortónimo tinha saudades dos heterónimos! A bela vida de peregrinar os lupanares da imaginação, tomar uma bebida nos confins da memória, escalar as aventuras de uma boa polémica literária, arranhar sem pruridos as consciências mais puritanas do Grémio Literário.
Deixou Paul entregue às suas cogitações e voltou ao ponto de partida. O sol estava mais fraco e uma nuvem carregada de saudades choveu sobre ele um murmúrio de carícias. Fernando sentiu a fraternidade a imigrar-lhe pelos poros adentro.
Deve ter-se enganado no caminho, porque foi parar a um restaurante com esplanada: “Why, Kiki? Bitch!”. Mas os autóctones conheciam-no pela Tasca do Ti Vicente. Havia jarrões com girassóis por todos os lados. O dono, um tipo ruivo com ar rústico, também gostava de pintar.
— Prove-me esta saladinha de polvo e depois diga-me coisas...
Fernando teve de dar o braço a torcer. A saladinha estava detrás da orelha. Já o mesmo não se podia dizer das pinturas do Ti Vicente.
— Pelos vistos, também gosta de pintar...
— Oh! Isso é só para entreter. Nem sequer vendo as telas. O meu irmão é que gosta de tratar desses assuntos. Eu prefiro ocupar-me aqui dos meus petiscos.
— Pode transmitir os meus cumprimentos ao chefe.
— Isto é tudo cozinhado por mim.
— Os meus parabéns.
— Sabe, ainda pensei num self-service, mas esta malta daqui não tem paciência para estar nas bichas. Se eu montasse um self-service, eles fugiam todos para os restaurantes de frutos tropicais, batidos, essas coisas. As miúdas aqui andam todas em topless, por isso é muito importante manter a linha.
— E então virou-se para os petiscos...
— Foi o melhor que fiz. Especializei-me na saladinha de polvo. O segredo é o vinagre. Ainda noutro dia veio cá um grupo de amigos franceses e ficaram a chorar por mais.
— Vêm cá muitos franceses?
— Nem por isso. Estes são uns pintores amigos. É a troupe do Monet e do fugitivo.
— Quem ? Nunca ouvi falar.
— É uma reinação que a malta tem. O Monet acaba por pagar as contas, que o amigo dele foge sempre na hora do digestivo e deixa-o agarrado à dolorosa. Está a ver aquele quadro grande com nenúfares? Foi ele que deixou. Não gosta dele. Diz que só o pintou porque a tinta verde e a lilás estavam em promoção.
— Por acaso gosto.
— Eu sou mais dos girassóis. Mas não tenho nada contra os nenúfares.
— Pois claro. Cada um é como cada qual.
— Ora exactamente. Pinta e deixa pintar.
Mais um doce da avozinha, mais uma baba de camelo, mais um salpicão caseiro oriundo de Saint-Vincent-de-les-Oreilles, mais uma pinga especial de coco torrado, mais um queijinho da serra, umas bolachinhas com doce de goiaba, uma bica pingada, um bagacito, quando deram por eles a tarde já se tinha posto na alheta.
É assim a vida dos pobres. Fernando Ortónimo despediu-se de abraço do Ti Vicente, arrotou alarvemente, meteu os calcantes à estrada e fez-se à praia sem mais delongas.
Demorou um bocadichinho a descobrir a garrafa, sentou-se ao pé da rebentação a olhar a lua e até fez uma festa na Dominique, que veio poisar ao seu lado.
Depois, com todos os vagares, meteu uma perna dentro da botelha, meteu outra, esticou-se todo e afunilou-se o melhor que soube. Ajeitou-se uma última vez, espreitou cá para fora pelo vidro fosco, suspirou e disse:
— Jarbas, prego a fundo para a “Twilight Zone”. Porra, que se come bem no Tahiti...

Von Grazen, 12/3/2003, 05h29m

Domingo, Dezembro 03, 2006

Molha a tua pena no meu mojito

Amanheceu. Fernando não tinha dormido. Passara a noite no campo, como Alberto Caeiro. Ainda cheirava a ovelha. Sentado à mesa da “Brasileira”, oferecia a sua palidez suavemente abigodada aos raios tímidos e frescos da alvorada.
O Chiado acordara sem grande vontade de trabalhar. Alguns pombos mais audazes tinham acostado na estátua de Luiz Vaz. O vate ignorava-os com snobismo olímpico. Ao fundo, o Tejo bocejava de portugalidade indiferente.
Fernando olhava para o branco imaculado da folha de papel e pensava para com os seus botões: “Quem sou eu, concretamente, agora? Está-me a apetecer escrever, mas não sei quem sou. Ora, é absolutamente impossível começar a escrever sem saber quem sou. Pelo menos antes das dez da manhã. Já não tenho vida para passar a noite no campo”.
Um jornaleiro conhecido cruzou o espaço territorial do multipoeta e disparou de forma sociável:
— Ora então muito bons dias, sôr Fernando. A trabalhar para o bronze?
Fernando devolveu os bons dias de uma forma o mais neutral possível. Ainda não tinha decidido que heterónimo vestir para o resto do dia. E sabe-se como é importante colocar a voz no princípio da jornada. O problema tinha tanto mais acuidade quanto se sabe o que Fernando sofria por não possuir uma voz própria, mas uma multiplicidade de dialectos interiores que o assaltavam sem respeito.
Uma senhora bem apessoada sentou-se de perna cruzada na mesa do lado. Pediu uma meia de leite ao Lopes. O Lopes regressou cinco minutos depois, com uma meia de leite, uma discreta erecção de homenagem e 80 gramas de neve cáspica uniformemente distribuída pelos ombros.
Fernando já rabiscara clandestinamente três ou quatro versos libertinos: “Ela sentou-se de perna cruzada/gaivota do Tejo de poiso fortuito/lançou-me um olhar de névoa e promessas/pedi um bagaço e suspirei”.
A meio da manhã, a senhora quebrou o gelo e apresentou-se: Jéssica Coelho, muito prazer. Tal era a sua graça. Fernando coçou a cabeça imaginariamente e acabou por responder ao acaso: Alexander Search, encantado. Descobriu-se por breves momentos, suspendeu por segundos o traseiro no espaço, persignou o olhar numa rasante à calçada portuguesa.
Estavam apresentados. Nessa altura, Fernando não sabia que Jéssica Coelho não passava de um dos muitos heterónimos de Ofélia, a versão libidinosa, para passear na Baixa e provocar os homens de uma Lisboa puritana e madraçamente dada a ignorar os prazeres da carne.
O poeta continuou imerso nas suas cogitações e decidiu que era melhor traduzir Jéssica para inglês, de modo a emparelhar sem medos com Alexander Search. Jessica Rabbit soava-lhe bem. E pensou: “Não é nada má. Só foi traçada assim”.
O sol interessou-se por Fernando e desceu sobre Lisboa de forma mais convidativa, a chamar turistas e fazer jus à fama mediterrânica da cidade. Fernando meteu a mão na algibeira e de lá tirou uma carta de um admirador americano, Ernest Hemingway.
“My dear fellow: este que te escreve grama à brava os teus desvarios literários. However, faz-te falta sol como deve ser e dois lotes de requebrado mulato. Porque não vens passar uma quinzena comigo, a Havana? Não te preocupes com os cobres. És meu convidado. Sobe-te para um vapor confortável e faz-te ao mar. Espero-te para trocar ideias e beber uns copos. Do teu: Ernesto”.
A ideia não era má. Mas Fernando tinha azar às saídas. Pelo que ouvira dizer, Lisboa não se podia comparar a Paris, Londres ou Nova Iorque. Mas era Lisboa, com mil diabos!
Experimentara uma ida a Portalegre, por causa de uma gráfica, mas as coisas tinham dado para o torto. A simples ideia de sair fazia-lhe confusão. Por outro lado, a viagem marítima poderia inspirar-lhe, quem sabe, uma ode. Dar-lhe a conhecer novos heterónimos. Por exemplo: Max Sailor (autor do poema “Gaivotas enterram Domingos Bomtempo”), Freddy Seagul (famoso pelo seu ensaio “Fernão Capelo Gaivota, estéticas revolucionárias na aerodinâmica das aves”) ou Joseph Konrádio (vencedor do prémio literário La Coupole, com o conto “Corações nas termas”).
O convite ficou a germinar-lhe pelos neurónios e não o deixou mais sossegar. Ofélia desaparecera sem deixar rasto, apesar de a atmosfera de Lisboa ainda cheirar a meia de leite. Pagou os 23 bagaços, o pires de amendoins, endireitou o laço e fez-se à estrada.
Uma semana depois estava a bordo do transatlântico “Durban”, navio imponente, de cores claras, muitas chaminés e alguma poesia à solta. A viagem correu tão bem quanto seria de esperar. O único percalço ocorreu já na parte final. O proprietário do camarote “Delfim”, também escritor (de seu nome Alexandre Runas) propôs-lhe um duelo de heterónimos e Fernando caiu na asneira de aceder. O Chevalier não durou dez segundos às mãos de D’Artagnan. Mas um homem só tem uma palavra. No dia seguinte, Runas recebia como pagamento “O livro do desassossego”.
Fernando chegou a Havana num dia quente. Depois descobriu que era mesmo assim. À sua espera estava um miúdo de ar sorridente, que afirmava ser amigo do “Papa”. Estranhou. As relações entre o Vaticano e as crianças pareceram-lhe muito dúbias e forçadas. Só mais tarde compreendeu que o “Papa” era o amigo Ernesto. Uma espécie de Ti Ernesto em versão habanera.
— A pesca para mim é uma religião — disse-lhe Hemingway num fim de tarde.
Estava explicado o epíteto de “Papa”.
— Vais ficar aqui num quarto do meu hotel. No quinto piso, para ficares perto de mim e podermos trocar ideias literárias quando quiseres. Também tenho uma quinta, com quatro cães e 57 gatos.
Nessa noite Fernando não dormiu. Passou horas a fazer cálculos, tentando encontrar o significado cabalístico de uma série de operações aritméticas que envolviam 4 e 57. Só de manhã percebeu que se tinha esquecido de juntar o 5 (quinto piso do hotel).
— Tens a lua em Vénus, mas ainda não é bem definitivo, porque me esqueci do 5 — disse ele para o Ti Ernesto, quando se encontraram para tomar o pequeno-almoço.
Depois foram até ao bar “La Floridita”, onde o Ti Ernesto era muito conhecido e costumava ler o jornal. Fernando aproveitou para criar mais meia-dúzia de heterónimos com nomes de “cocktails”: Alberto Cuba-Livre, Bernardo Blue-Coração, Álvaro Screwdriver, Alexandre G. Tónico.
Hemingway despachou 12 daikiris com carácter de urgência.
— Olha lá, tu deves estar habituado a estas coisas, mas quanto a mim devias ter cuidado com os emborcanços. Olha que isso não é bagaço. O que vale é que eu viajo sempre com as minhas garrafinhas do dito, como a Angelina Antas Ruiz.
— Quem?
— É uma escritora da Pasteleira. Não leste “Os putos prateados”?
— Não, ainda não cheguei aos escritores portugueses e já tenho 8 mil volumes na minha biblioteca.
— Isso é muito livro.
— Pois. Mas sabes que na pesca se passa muito tempo sem fazer nada.
— Então e na caça ?
— Na caça só leio à noite, ao pé da fogueira.
Fazia sentido. De sentido em sentido, Fernando converteu-se aos hábitos alcoólicos de Hemingway e em menos de uma semana já era conhecido como “o amigo espanhol” do Ti Ernesto.
Espantou-se com tantas fotografias do Ti Ernesto nas paredes do “La Floridita”, ao lado de gente como Errol Flynn, Spencer Tracy, Gary Cooper.
— Quem são estes à tua beira? São os teus heterónimos?
— É rapaziada do cinema, que também gosta de uma boa pândega.
— As caras deles não me são estranhas. Tens a certeza de que não tens aqui nenhum heterónimo?
— Most sure, bloody hell ! Já não tenho heterónimos. Bastards, não pagavam as quotas, só queriam andar comigo na borga.
— Os meus heterónimos não pagam quotas. Basta preencher a ficha de inscrição.
— Vamos lá até à “Bodeguita del Medio”, que me está a apetecer um mojito...
— Estou a pensar numa coisa: se calhar não era má ideia começar a partir os bagaços com rum, quando chegar a Lisboa...
E a vida era assim em Havana. Hotel, “Floridita”, “Bodeguita del Medio”, uns passeios de barco (“Ai aquilo é que é o merlim azul? Também há de outras cores ?”), umas cenas de caça (“não quero, Ernesto, não quero, não insistas. O coice da arma ainda me dava cabo da Maria José”), umas voltas de Chevy (“os carros daqui dão para meter a Biblioteca Itinerante da Gulbenkian e ainda sobra espaço para gajas”), duas de conversa sobre literatura.
— E pronto. Escrevi “O Velho e o Mar”, baseado numa história real com o velho Gregório.
— Tens a certeza que o velho Gregório passou mesmo por isso?
— Ó Fernando (hoje és o Fernando, não és? Diz lá, pá, sinceramente, sabes que eu vou com todos), palavra de honra! Claro, se fores perguntar aos meus biógrafos, claro que eles não confessam, só para contrariar.
Não obstante a suprema resistência aos vapores etílicos, de 15 em 15 dias Ti Ernesto e Fernandinho apanhavam uma bebedeira literária a sério, de entrar para os anais do Nobel, do Pulitzer e de mais uma dezena de prémios literários. Geralmente, era o Ti Ernesto que carregava o Fernandinho até ao hotel.
— E fica sabendo que sou muito melhor escritor que tu. És um palhaço que passa a vida a fazer mal aos animais, a caçar e a pescar. Tu nem sequer tens asterónimos! E tenho quase a certeza que comemos um dos teus gatos lá na quinta, a semana passada. Larga-me, quero chamar ao Gregório...
— Fernando, continuas assim e eu meto-te no primeiro barco de volta a Madrid. Sabes que sou um gajo porreiro, mas tudo tem limites.
No dia seguinte, Fernando olhava para Hemingway com um ar envergonhado e dizia:
— Ernesto, estiveram a contar-me que saíste ontem com o Caeiro e que ele se portou mal. Queria pedir-te desculpa por ele. É um boçal, passa a vida metido com as ovelhas, só lê Teixeira de Pascoaes, sabes como é...
— Never mind. Vou-te dizer uma coisa. Pelo preço de um quarto no hotel, fiquei a conhecer uma molhada de amigos.
Dias mais tarde, Fernando embarcou de volta para Lisboa. Coincidência das coincidências, o paquete “Massagem” acolhia no camarote “Orgias” o escritor Alexandre Runas. Desta vez, Fernando não arriscou. Gastou três dias a estudar os movimentos de Porthos, Athos e Aramis e depois lançou os seus heterónimos ao ataque, à saída da sala de ténis de mesa. Não recuperou “O livro do desassossego”, mas pelo menos vingou-se.
No dia seguinte foi interpelado por Runas, numa cadeira ao lado da piscina:
— Ó amigo, por acaso não viu os meus mosqueteiros?
— Olhe, atiraram-se ontem ao oceano, depois do folhetim da Emissora Nacional...
— Não me diga...
— Ah! pois. Dói, não dói ?
O resto da viagem decorreu sem notas dignas de registo. Apesar do mau tempo no canal e dos monólogos de um solitário passageiro açoriano, que vinha sempre importunar Pessoa com as suas memórias na hora de recolher ao quarto:
— Se bem me lembro...
Foi com redobrada emoção que Fernando se sentou na sua mesa habitual da “Brasileira” e reencontrou o sorriso do Lopes, fértil em cáries, mas fiel de fraternidade:
— Pois é, sôr Fernando. Venderam o “Martinho” aos espanhóis. É a mundialização... então e Cuba, que tal?
— É plana.
A seguir trouxeram um javali e amordaçaram o bardo. Tudo voltou à normalidade na aldeia que resistia ainda e sempre ao invasor da realidade.

Von Grazen, 28/2/2003, 05h10m